Nostalgias

 

1.   Mi Buenos Aires querido...”

Raros os brasileiros que não conhecem Buenos Aires. Mais raros ainda os que não conhecem os caminitos que levam à Boca.

Mas quantos conhecem, na Boca, o Museu Quinquela Martim, na Pedro de Mendoza, 1835?

Prédio espalhafatosamente colorido em cujo terceiro andar o pintor morou e em cujos terraços se expõem obras de escultores argentinos.

Benito Juan Quinquela Martim

(*La Boca, 1/3/1890 - La Boca, 28/1/1977),

para além de o mais popular pintor argentino, é reverenciado por sua filantropia. Afinal, empregou na comunidade boquense o dinheiro auferido com seus quadros. A ele se devem, na Calle Pedro de Mendoza, o museu, um lactário, uma escola primária, o Teatro da Ribera...

Quantos já foram ao Museu Nacional de Belas Artes

para uma descansada visita aos pintores argentinos?

Por exemplo, Angel Della Valle

(*10/10/1852 -16/7/1903),

ali à esquerda da visitante,

com seu La vuelta del malón (entenda-se,  Retorno do saque)

─ libelo a provar, com o rapto da mulher branca e com o despojo de uma igreja profanada, que o tal bom selvagem, ora, vejam só, não passava de um mito romântico, incompatível com o realismo de nossa crença nesse 1892 do ano da Graça do Senhor.

E quantos foram às Galerias Pacífico (San Martín, 768) unicamente para contemplar sua cúpula com murais dos argentinos Spilimbergo, Castagnino, Berni, Urruchúa e do galego Colmeiro?

 

2.   “Tarde, que me invita a conversar con los recuerdos...”

Esse guided tour à Boca vista por três de seus pintores revela quanta razão tinha Aristóteles ao propor que, na arte, a imitação da realidade (mimese) implica sua idealização e, consequentes, embelezamento e melhoria.

O Rio Matanza (mais conhecido como Rio Riachuelo, “Riozinho” no diminutivo carinhoso), em cujas margens se debruça a Boca,

é um dos mais poluídos da Argentina, além de expor em suas margens o quadro de villas miserias.

Mas esse Riachuelo não é o que se reflete nos olhos de Víctor Cúnsolo (*Sicília, 2/4/1898 - 1937, Lanus, Buenos Aires)

Vuelta de Rocha

nem nos de Fortunato Lacámera (*La Boca, 5/10/1887 –   La Boca, 26/2/1951)

 

3. “Caminito que el tiempo há borrado...”

Basta comparar a Boca desse século XXI

com a Boca dos anos vinte a quarenta do século passado. Feita a comparação assalta-nos a nostalgia. (Pronuncie-se com sotaque portenho, paroxítonamente e com um r gutural no g, que esta Pincelada bem que está soando a quejas de bandoneón: “Gime, bandoneón, tu tango gris...”) A barulhenta Boca de hoje, algazarra de turistas (sobretudo brasileiros), cala-se ensimesmada e provinciana nos quadros de Lacámera

e Cúnsolo

La Vuelta de Rocha hodierna

em nada lembra a emoldurada poesia de Lacámera.

Aposentado, o porto no Rio Riachuelo já não é palco da epopeia de estivadores,

Actividad en la Boca

pintada por Quinquela Martim com rubor solar diluído em suor,

A pleno sol no porto

ou de remansosa preguiça de barcos, como no quadro de Cúnsolo:

O porto

A extroversão da Boca turística recolhe-se poeticamente contemplativa quando lobrigada desde (passe o espanholismo) o estúdio de Lacámera.

Contraluz

Fechados por dentro, defendidos pelas frestas que mais parecem pálpebras cerradas, não queremos espiar a realidade que

nos incomoda. Quietos, sintamos que a vida passa devagar, como um crepúsculo preguiçoso anoitecendo nossos olhos.

 

4. “Rechiflado en mi tristeza hoy te evoco y veo...”

À personagem central de Midnight in Paris

Woody Allen concedeu-lhe o sonho de fugir à realidade insatisfatória do século XXI, fazendo-o viver nos roaring twenties de uma Paris festiva. Eu, que já perdi a conta de quantas vezes fui comemorar meu aniversário no inverno bonaerense...

eu

que, embalado por Gardel, Piazzola, Horácio Ferrer e Anibal Troilo, el Gordo Triste, “quiero emborrachar mi corazón...

─ eu... que sé yo... deixo que Fortunato Lacámera

 

                                                                                                e Víctor Cúnsolo

 

despertem em mim o sonho de viver na Boca dos snoring twenties, therties and forties ─ a Boca embelezada pela nostalgia da mimese aristotélica.

(Que tal reler esta Pincelada ao som de "Nostalgias", cantado por Edmundo Rivero?)