René Magritte

(*21/11/1898,Hainaut, Bélgica– †15/08/1967, Bruxelas)

 

1. Educação dos sentidos

Vida --- essa depositária de uma Realidade inapreensível.

 Único espaço que ainda guarda algum sentido e plenitude, capaz de reconstruir, encerrar e perquirir o Universo, é o espaço da Arte, (Tentando o Impossível, 1928) representado, no caso de Magritte, por seu pincel reflexivamente poético.

 

  A Condição Humana, 1935

Sem doutorado na arbitrariedade do Signo linguístico, Magritte (ouço em suas telas) indagava, à sombra da borla e capelo do Sr. Ferdinand de Saussure:

“Como apreender e traduzir, ao longo dos séculos, a essência do Outro, da Vida, da Realidade, enfim, da Natureza oferecida aos nossos cinco sentidos,

A Raça branca, 1937

 se nosso sexto sentido é uma linguagem, um discurso, cujo Significante, criado pela Cultura que engendramos com nossos códigos e pré-conceitos, nada tem a ver (e a sentir) com o Significado?”

Magritte, a exemplo do Mestre Caeiro (de quem penso ele, Magritte, tenha sido o heterônimo pintor), tal qual Caeiro, Magritte não obteve, com a perquirição de sua obra pictórica, a resposta de como o Significante pode colar-se, transparente e especularmente, ao Significado.

A traição das Imagens, 1928-29   Isto não é uma Maçã, 1964   Interpretação dos Sonhos, 1930

 

Em busca de um discurso que rompesse a arbitrariedade dos signos, a pintura de Magritte estava fadada à mudez, ao silêncio (dêictico e sensorial) de um dedo a apontar-nos a intraduzível realidade dos seres.

 

A Máscara vazia, 1928

  

 

2. “Uma aprendizagem de desaprender”

Por outro lado, olhos doentes de mentar, seríamos capazes de acompanhar-lhe o bisturi do pincel dissecando a verdadeira realidade da Natureza de que descendemos, nós, os bastardos de seu Sentido?

Por que inefável, por que impossível de expressar-se em palavras ou formas, a Natureza que deveras temos e nos contém?

Reprodução proibida, 1937

Penso que porque, desde que saídos dos rupestres signos da caverna platônica, nossas palavras são filhas de uma Cultura que as criou à luz (solar?) de nossos pré-conceitos. A Natureza --- nossa mãe e nutriz, anterior, pois, à nossa labilidade (já esclerótica?) ---, não soube criar-nos e educar-nos à imagem e semelhança do bê-á-bá sensorial, puramente sensorial, de primária alfabetização:

“O essencial é saber ver,

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê,

E nem pensar quando se vê

Nem ver quando se pensa.

 

(O espelho falso, 1935)

 

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!)

Isso exige um estudo profundo,

Uma aprendizagem de desaprender...”  (Alberto Caeiro)

Ligações perigosas, 1926

 

Assim sendo, ablactados do seio de nossa mãe Natureza, resta-nos ser ovelhas tresmalhadas. A balir, desesperadamente, por Magritte e Caeiro, esses guardadores do rebanho de seus (e nossos) pensamentos.

Inútil desejar que Magritte, com o cajado de seu pincel à Caeiro, nos pastoreie de volta à Natureza, rumo ao redil do Ser e da Essência.

Narciso cego, a Arte, seja ela qual for, não pode rever-se à imagem e semelhança da Realidade.

Os dois Mistérios, 1966