José Malhoa

(*.Caldas da Rainha, 28/4/1855 – † Figueiró dos Vinhos, 26/10/1933)

 

1. Olhos da alma

Malhoa não aprimorou seu talento como bolsista no Exterior, preterido por apaniguados. (Quem não tem padrinho, morre pagão? Talvez por isso tenha pintado Batizado na Aldeia)

  Ainda assim, respira-se no ateliê de José Malhoa aquele ar à Montmartre,

  aquele desleixo de gênio. Cujo espírito, absorto, só tem olhos para a nudez de sua fantasia.

 

 

2. Cantadas

Nesse quadro, A praia das Maçãs (1918),

insinua-se a versão burguesa e bem comportada da bíblica tentação, cantada que mal se ouve, abafada pelo marulho do mar?

Consagrado como retratista do ócio e diversão tanto da alta burguesia como do poder reinante, Malhoa não haveria, contudo, de esquecer a arraia-miúda. Sua alma popular rendeu-se, embevecida, à sedução marginal do fado.

  Talvez porque se reencontrasse. Encarnada no faia Amâncio (apelidado, na Mouraria, de “Pintor”) e na sua amásia Adelaide da Facada.

 

 

3. Lume, castanhas e vinho...

 No dia de S. Martinho, em 11 de novembro, Portugal festeja o santo húngaro, comendo, assadas, as primeiras castanhas colhidas e bebendo água-pé, ou seja, a primeira prova do vinho antes de acabar a fermentação. Em suma (e próvidos sumos), festança capaz de encher o caco de Sileno, deixando-o num porre homérico.

Sileno Embriagado, Rubens, 1618, Alte Pinakotec, Munique.

Vivo quadro do festejo de S. Martinho deixou-nos José Malhoa,

ilustrando o provérbio popular que reza celebrar-se o santo dia com lume, castanhas e vinho.

Naturalmente, percebe-se que o lume arde à conta do fogo que os tomou.

 

 

4. A título de proveito e exemplo

   Ai, Credo, José Malhoa, 1923.

   Cócegas, José Malhoa, 1904.

   Vou ser mãe, José Malhoa, 1923.

Precisa dizer mais?

 

 

 5. Em bons lençóis

Não sei por que cargas d’água essa tua imagem, Clara,

  me traz à mente o que, silenciosa e recatadamente, desejo a quem se despede de sua vida de solteiro: clean sheets and a dirty woman.