Marc Chagall

(*07/7/1887, Vitebsk, Bielorrússia - † 28/3/1985, Saint-Paul-de-Vence, França)

 

1.

Poeta deitado

Foi um levitador de sonhos,

O aniversário

nefelibata, querendo viver no mundo da lua:

O Pintor: à Lua

Desejava pairar sobre a realidade insatisfatória,

Over the city

Por sobre Vitebsk

fundando seu éden, sua arcádia, na aldeia nativa ─ Vitebsk:

Eu e a aldeia

Simples tarefas e fatos do cotidiano aldeão

O negociante de gado

 compunham o discurso de um paraíso, regado a leite e mel, onde deviam reinar a paz e harmonia universais,

Vida rural

segundo as promessas duma religião judaico-cristã.

Reflexo cubista, viu-se com seis dedos:

Autorretrato com seis dedos

Talvez a querer convencer-nos de que trazia à mão um sexto sentido capaz de decifrar as esfíngicas profecias bíblicas.

Contudo, a justaposição coordenada das imagens, tiradas de seu contexto e de seu significado, violavam o universo de nossa compreensão cartesiana,

denunciando a natureza surrealista de seu sonho. Logo, incabível na realidade terra a terra desse nosso mundo.

Preso no labirinto da imaginação desregrada, seu sonho era Minotauro perdido de amores por monstruosa Quimera:

Para a minha noiva

 

2.

 “ Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”, aconselhava Tolstoi 

(*9/9/1828 - †20/11/1910),

 aquele mesmo que escreveu Guerra e Paz ─ tintas em conflito na paleta de Chagall.

Suas telas ficaram universais. Mas não a paz bucólica e edênica de sua aldeia, vigiada pelo olhar ciclópico de alguma divindade desdenhosa dos anseios de suas criaturas:

O olho verde

Queda dum anjo,

A queda do anjo

seu sonho de Ícaro

A queda de Ícaro

precipitou-se, abrasado no holocausto de duas guerras:

A guerra

A terra prometida exigia a oferenda de sacrifícios sangrentos:

A crucifixão branca

Só lhe restou a melancolia do torá fechado

Solidão

na mudez das preces

Judeu a rezar

e nosso incansável êxodo de peregrinos errantes

Êxodo

 em demanda de inalcançável paraíso:

A contestação

 

3.

Correspondendo à área do atual Estado de Israel (inclusive as Colinas de Golã), da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, de parte da Jordânia (uma faixa na margem oriental do Rio Jordão) ─ Números 34:1-15 e Deuteronômio 3:8 ─,

Canaã,

paraíso entrevisto por Abraão,

hoje conflagrado pomo da discórdia,

não passa de mera Utopia.

 Ou seja, lugar nenhum. Onde habita, desterrado, o sonho de Chagall.

 O que fazer com o legado amargo desse limão, senão

Dia de festa (Rabi com limão)

uma caipirinha de vodca?

Afinal, todos estamos sequiosos por brindar

O soldado bebe

a Paz

Shimon Perez, Papa Francisco, Mahmud Abas nos jardins do Vaticano (08/6/2014)

nessa nossa aldeia de homens com (creiamos) boa vontade.