Henri Matisse

(*31/12/1869, Le Cateau-Cambrésis– † 3/11/1954, Nice)

 Santa trindade

Em Flores do Mal, de Baudelaire, há um poema intitulado O Convite à Viagem. Cujo estribilho, insistente mantra, quer-nos convencer de que

(“Onde dorme o mundo em paz/ Num clarão macio e morno”)

outro paraíso artificial, além do absinto, do ópio e do haxixe, se oferece ao horizonte de nosso sonho domingueiro:

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,

Luxe, calme et volupté.

Título de uma tela datada de 1904, 

 Luxo, calma e volúpia, para além de possível glosa ao mote oferecido por Charles Baudelaire, sintetizam o que Matisse buscou reproduzir em sua obra pictórica, oferecendo-a como consolo e compensação ao spleen baudelairiano da burguesia francesa.  

            Só da francesa?         

Afinal, para a esfalfada sensibilidade de citadinos não é mesmo um luxo a calma volúpia que se desfruta inocentemente numa praia de nudistas, com frango e farofa regados a sidra?

Verdadeira alegria de viver o esbaldar-se num déjeneur sur le sable?

 

Alegria de viver, 1905-1906.

Que sirva de consolo à bermuda domingueira de nossa alma essa nostálgica reinvenção arcádico-pequeno-burguesa da Idade de Ouro perdida:

Pastoral, 1905.

 

 

I.  Luxo

1. A olho nu

Roupa, uma segunda pele? Cauda emprestada do pavão?

A dama de azul,1937.

Mas luxo mesmo, oferenda divina, está na nudez da alma que, com calma volúpia, se enxerga a olho nu.

Luxo I, 1907.

Agora sem esse pudico véu rendilhado do pontilhismo à Signac:

 

2. Fera

Sacrossanta esposa de Matisse, Amélie Parayre de Toulouse serviu como musa e modelo desses quadros acoimados de fauvistas;

  Mulher de chapéu, 1905.

 

Retrato com risca verde, 1905.

Em razão (ou sem-razão) desses quadros, Matisse foi catalogado como fauve (fera) pelo crítico Louis Vauxcelles. Que, arrimado à bengala e ao cão-guia de sua falaciosa visão, exigia fosse a arte pictórica reprodução fidedigna (?) da natureza --- e não essa explosão desarrazoada de cores puras tachada de fauvismo.

(Mas, cara, não é mesmo fera quem consegue enxergar e retratar o luxo e colorido felinos da alma feminina com o destrambelho da TPM --- Tonalidade Pouco MatiSSada?)

 

II.  Calma

1. Música

Para os deuses, arco suicida serrando as próprias cordas era violino.

Para os deuses, flautas, como cânulas de sono e sonho, eram cachimbo.

Querendo que o sonho do céu acordasse na terra, os deuses, bondosos, doaram violino e flauta para os homens.

Música, 1910.

Que, atentos ao silêncio que ouvem, aspiram a que o fumo das flautas-cachimbo lhes nuble a visão, mas lhes aguce os ouvidos. A ponto de fazê-los entender o inaudível (e pobremente cromático) discurso da música.

 

2. Lição de piano

O metrônomo fita o menino sentado a um piano fabricado por Ignace Pleyel.

A lição de piano, 1916.

Por audiência, um escorço de mulher (a mãe? a irmã?) e uma escultura.

A figura feminina, desatenta.

Vejam-lhe o vazio do rosto, sem olhos nem ouvidos.  Funde-se ela de tal modo ao móvel em que se senta que bem lhe assenta a condição de mulher-bibelô, mera figura decorativa do lar.

A estatueta (madeira de morena sensualidade?)

com uma cara de pau (também sem olhos, boca, ouvidos) capaz de simular um à vontade de quem, lânguida, se deixa seduzir pela melodia que naturalmente também não escuta.

Nada se ouve, além do silêncio que, tumular, a todos petrifica.

Única chama de vida, mas que não se escuta crepitar, a da vela.

Irônica a lição desse piano que, inaudível, é pautada pela vida de Pleyel.

Pleyel, quem foi?

Além de fabricante de piano, foi aluno exemplar de Hayden, tendo composto dezenas de sinfonias. Que permanecerão mudas, inefáveis, se dependerem do talento pétreo de Pierre, primogênito de Matisse.  

 

 

III. Volúpia

            1. Sonho de mil e uma noites    

      

A imagem que tenho de Matisse é a da arte conspícua. Cujo avental e brancas, porém, não conseguem esconder a juventude de seu ser --- sultão desejoso de uma boa comida árabe.

Odalisca com saia de tule, 1929. Odaliscas a jogar às damas, 1928. Odalisca com calça cinza, 1927.

Ou será que suas odaliscas só têm a função de figuras meramente decorativas sobre o fundo, esse sim, luxuriante e luxurioso, dum sonhado serralho?

Figura decorativa sobre fundo ornamental, 1925.

            Súcubo esse sonho de uma partidinha de damas ao longo de mil e uma noites?

Odalisca na cadeira turca, 1928.

 

 

Continua em 22 de maio

         NÃO PERCA