Henri Matisse, II 

(*31/12/1869, Le Cateau-Cambrésis– † 3/11/1954, Nice)

 

Malas-Artes

1. Dança

Dança --- discurso que se expressa através do corpo. Inefável, contudo. Assim sendo, o que entender dessa linguagem corporal feita de posturas, gestos, movimentos?

O que nos diz essa primeira versão da Dança (1909), que, no MOMA, forceja por girar ante nossos olhos, querendo hipnotizar-nos? Que nos diz esse corpo que escorrega e, aflito, estende braço de náufraga mão em busca de apoio que, embora oferecido, não alcança?

Talvez porque não tenhamos traduzido o discurso dessa ciranda rompida, Matisse  insista em repetir o discurso girar ante nossos olhos, querendo a linguagem corporal feita de posturas, gestos, movimentos?

Dança, 1909-10.

Agora num rubor inflamado de corpos dolorosamente contorcidos, acentuando o desespero dum ser cujo escorregão e queda o torna elo rompido na cadeia. Ruptura e morte da solidariedade humana querem dizer esses quadros?

Talvez por isso tenha culminado a criptografia desse discurso corporal como fundo

  Natureza morta com A dança, 1909.

de uma natureza morta --- a humana?

  

 

 2. Sinestesia

Para fugir ao tédio do silêncio, Deus teria primeiro feito o violão.

Música, 1939.

Em seguida, tocado pela emoção, criou a mulher à sua imagem e semelhança. Do violão, é claro.

Fez-se assim a mulher --- instrumento de um prazer a ser tocado.

 

 

3. Lição da Pintura

Lição de Pintura chama-se esse quadro de Matisse.

Mas prefiro lê-lo como Lição da Pintura.

Quem o aprendiz?

O espelho, que, tal qual um olho oblíquo à Capitu, dissimula enxergar a realidade, refletindo-a?

O pintor, que se funde à tela, confundindo-se com o modelo, a ponto de não se distinguir quem pinta quem?

            Ou aprendiz será nossa sensibilidade,

essa menina sonolenta que não percebe esteja a lição da pintura no pincel  que, posto à nossa frente, se oferece para que pintemos outra a tela  (toda tela) que nós vemos? 

 

 4. Retrato falado

            “Esforço-me por criar uma arte que seja perceptível a todos os observadores.”

            Essas palavras de Matisse bem que traduzem o que tenho tentado fazer ao longo e fio dessas Pinceladas.

            Artes de ventriloquia, toda epígrafe.

            Meros bonecos, articulamos com a (e pela) voz alheia o que pensamos ter pensado. Sem o saber dizer.

Assim, cremos seja a epígrafe nosso retrato. Falado.