Jean-François Millet

(*Gréville-Hague, Normandia, 4/10/1814 – † Barbizon, 20/01/1875)

Filho de pequenos camponeses de Gruchy (em Gréville-Hague, Normandia), Millet, a meus olhos, retratou o campo com uma acuidade de fazer inveja a qualquer movimento realista. Fosse eu funcionário do INCRA  (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) mandaria imprimir um folhinha com quadros do Millet. E, num pacote com enxadas, ancinhos e arados, distribuiria essa folhinha como fonte de inspiração diária ao MST. Afinal, a terra, como dizia Cesário Verde em seu livro, não é cromo bucólico de padaria (“Ah! O campo não é um passatempo/ com bucolismos, rouxinóis, luar.”). Nem tampouco semente de panfletarismo demagógico.

 Messe

Há dias em que o olhar

lança nas coisas semente

e espera despontar

o que era então ausente.

 

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Nesses dias há tantos gumes

nas retinas a lavrar,

que o poema é grão de lume

no papel a germinar.

 

O que se abre contudo,

no vítreo olhar do orvalho,

são estas pétalas rotas.

 

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Cabe-me então o trabalho

de recolher, gota a gota,

meus olhos à flor de tudo.

 

2. Prece?

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À hora do ângelus, um louva-a-deus?

 

3. Louva a Deus

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“Reminiscência arqueológica do Ângelus, de Millet”, de Salvador Dali, 1935.

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“Atavismo do crepúsculo (obsessões)”, de Salvador Dali, 1933-34

O quadro Ângelus, de Jean-François Millet, fez parte não só das admirações como das obsessões e fantasias sexuais de Salvador Dali.

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“A estação de Perpinhán”, 1965, de Salvador Dali

Também admirador de Jean-François Millet, prefiro a unção religiosa dos seus quadros, agradecido te Deum à terra,  às versões e (re)visões heterodoxas de Dali.

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Por isso, no Ângelus de Millet, ouço-lhe o seguinte louva a Deus:

 

Grão do submerso

Teimo, teimo em acordar-te,

grão do que está submerso.

Rebenta em mim com a parte

que, proscrita, faz o verso.

 

O papel (barro ou estrume?)

é gleba em que me habitas:

degredo de insone lume

em minha alma interdita.

 

Procuro então o segredo

desses aços necessários,

seja sega ou punhal.

 

No fio e gume dos dedos,

a têmpera do precário,

chama já grisalha, é cal.