I. A Édipo

  Dominique Ingres (*Montauban, 1780 - †Paris, 1867)  ingres_edipo.jpg (530347 bytes)

 

 e Gustave Moreau (*Paris, 06/4/1826 - † 18/4/1898) moreau_edipo.jpg (169378 bytes)

 

 retrataram um Édipo cuja androginia não faria jus à macheza e incesto que, decifrados por Freud, pesam em nosso inconsciente como pecado.

 Outros passos, os dos pés inchados, segue Francis Bacon em seu diálogo com a esfinge, via Ingres.

 

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Pintura que fala, a poesia? Se for, prefiro decifrar  o caso de Édipo com a Esfinge assim:

Já não vês

com nossa retina de cegos

- essa tabula rasa

de imagens consabidas.

Estás livre

das formas difusas

que enclausuram cores

para o engano dos sentidos.

           Trazes agora,

subterrânea,

outra esfinge.

 

                     Poesia,

- mulher arrancada à costela do enigma -,

                     Leão,

- parte maior da fábula que te toma -,

                    ei-la

emoldurada de horizonte

no crepúsculo dos olhos.

 

Roubadas a Tirésias

duas gotas de treva

chamejam em tuas pupilas

- minhas agora,

translúcidas:

és o pai

dum coração também parricida,

pois que te devora

enquanto me decifras.

 

 

 II. Água-furtada: ecos de Narciso

 

  No espelho das águas de John Waterhouse (*Roma, 1849 - †Londres, 1917) waterhouse_eco_narciso.jpg (62222 bytes)

 

 e de Nicolas Poussin (*Les Andelys, 1594 - †Roma, 1665),poussin_eco_narciso.jpg (154018 bytes) assim revejo Narciso:

 

À beira de rios que, vãos,

querem olhos a correr,

assentou o coração,

que se mira a me rever.

 

Bem que a Narciso semelha

debruçado à flor da mágoa,

que no meu olhar espelha

sua íris que não deságua.

 

E na aridez da imagem

duma Dor que não reflui

como rio de olhos manado,

 

vejo-o golfado à margem

deste verso, rio que flui

em meu pranto afogado.

 

 III. Casulo de chama

 

Antecipado delírio psicodélico,  esse, o de Gustave Moreau? moreau_jupiter_semele.jpg (445992 bytes)

 

Carnavalesco carro-alegórico trazendo como destaques Júpiter e Sêmele?

Orra, meu! Fico a me perguntar como o femeeiro, insaciável e prolífico garanhão (que foi o Júpiter) poderia gerar Dioniso, ainda mais nas coxas, transformado como foi por Gustave Moreau nessa patética drag-queen?

Bebeu, cara?

Sóbria, minha versão do mito.  Vejam se mi(n)to.

 

1. Sêmele:

 

                   O Amor

                   -soube-o -

                           é

                   sêmen de fogo

                   em meu ventre:

                   és imortal,

                        Zeus,

                   posto que chama.

 

+ 2. Zeus:

 

                   Loucura a tua

                   querer ver

                   a vera-efígie

                   do Amor.

                   Antes não te soubera

                        nunca

                   o travo de meu ser:

                   toda chama

                        encanece

                        em cinzas

                   só por arder.

 

 = 3. Dioniso:

 

                     De meu pai herdei o fogo

                     que ele mesmo gerou

                     no ventre de sua coxa.

                     De minha mãe, a loucura

                     de sondar o véu espesso

                     sob o engano dos sentidos.

                     Fruto da treva e do fogo

                     fiz-me centelha de noite:

                     casulo de chama

                     na uva por acender.

 

 IV. Sileno

 

Assim Rubens  rubens_sileno_embriagado.jpg (124192 bytes) e José Ribera ribera_sileno_embriagado.jpg (622201 bytes)  pintaram a carraspana de Sileno.

Bebida em Baudelaire, a idéia de que, paraíso artificial, a poesia também pode ser um porre.  Ennivrez vous, mes amis:

 

1. A embriaguez

 

No lusco-fusco,

                        aurora da noite que há-de ser,

um velho,

                        calvo como o nada,

                        sábio como um cântaro múmuro de águas passadas,

fecunda a terra

                        com a semente de seus olhos

                        piscos de estrelas.

 

E, à espera da treva acendida

                        em vinha por beber,

boceja:

 

                        uma ruga de sede

                               vinca

                        a tez do crepúsculo.

 

V.  Gaia ciência

 

 

vangogh_noite_estrelada.jpg (261531 bytes)

 

Lua cheia sobre o arvoredo

é uva que se perdeu:

será néctar no degredo

que amadureceu um deus.