Mi(n)tologias, II

 

1. Espelho, espelho meu

 

Já disse, em alguma Iluminura dessas Pinceladas, que esse sim

Arcimboldo, O bibliotecário

é o verdadeiro  facebook.

O que vejo ostentado de corpo inteiro no espelho das redes sociais

René Magritte, Corpo humano

é a vaidade das pessoas.
 

Gustav Klimt, O retrato de Adele Bloch Bauer

Antes elas tivessem um brainbook

Almada Negreiros, Camões

que as ostentasse. Vaidoso delas.

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                                                                    2. Amor é...

Amor é cântaro

Velázquez, El aguadeiro de Sevilla

cheio de mútua sede.

Vá matando-a com goles pequenos, de modo que ela nunca se esgote.

Que não seja o Amor cântaro já cheio da mútua sede.

 

                                                                    3.- In vino veritas

Tamanho não é documento

 Bagos assim deste tamaninho, e olha só

Rubens, A embriaguez de Hércules

o trabalhão que deram.

Sileno

No lusco-fusco,

aurora da noite que há-de ser,

um velho,

calvo como o nada,

sábio como um cântaro múmuro de águas passadas,

fecunda a terra

com a semente de seus olhos

piscos de estrelas.

Rubens, Sileno

E, à espera da treva acendida

em vinha por beber,

sorri:

 

uma gota de sede

enrubesce

a tez do crepúsculo.

 

A raposa e as uvas

 

Fernão Dias Paes Leme lembra-me a fábula   

  A raposa e as uvas, de Esopo. 

À procura de esmeraldas, nunca as alcançou:

Eram também verdes uvas,

não me as cabia colher.

Minha ambição jaz viúva,

raposa a entristecer.

        

            Antônio Parreiras, Morte de Fernão Dias Paes Leme

Achou turmalinas cuja cor, verde, enganou sua esperança:

Realidade mascate !

Vendeu-me gato por lebre !

Alquimia do disparate,

decantei-me em brilho: célebre !

 

                                                                   4.- O fogo e as cinzas

            Que o fogo da paixão, tal qual fênix,

            

                Fênix em Las Crónicas de Nuremberg 

            renasça fogaréu das próprias cinzas


6.- Pastor amoroso

Sete anos de pastor Jacó serviu por Raquel, serrana bela,

sob chuva ou sol?

Camille Pissarro, Pastor sob um aguaceiro

Cevava a paciência com as cabras.

 

7.- Shit happens

Politicamente incorreto o Bordalo Pinheiro? 

Rafael Bordalo Pinheiro, Política

Politicamente incorreto é o político que tem ficha e... mãos limpas.

 

8.- Na crista da onda

Se já existisse o Greenpeace, Jonas, por ser enjoado, não seria vomitado na praia.

Gustave Doré, Jonah cast forth by the whale

Seria reconhecido como bíblico ativista contra a pesca e extinção das baleias.

E cruzaria oceanos abraçado com elas.

 

9.- 22/set./1982 

Primavera. Rebentaste

à rubra flor dos sentidos.

 

Súbitos olor e haste

do amor, grão do incontido.

 

10.- História da carochinha

Moral da história do Chapeuzinho Vermelho?

Gustave Doré, Chapeuzinho vermelho

Que o lobo, ao contrário do que se pensa, não era gerontófilo, nem pedófilo. Era, na verdade, bom de lábia, gentil, sedutor. Enfim, netinhos e netinhas, lobo sob a pele de cordeiro.

Que o diga Charles Perrault,

 

autor da versão impressa mais antiga, inserta em Contos da Mamãe Gansa (1697).

Que, aliás, também foi comida ao molho pardo.

 

11.- O cordeiro de Deus

Aí estão, na ilustração de Gustave Doré,

Caim e Abel oferecendo seus sacrifícios. Caim, lavrador, ofereceu frutos da terra. Abel, pastor, ofereceu um cordeiro.

Como os sacrifícios oferecidos à divindade deveriam ter derramamento de sangue, Deus aceitou o sacrifício de Abel.

 

12.- Arte vagabunda

Quem não conhece a fábula da cigarra e das formigas?

Da cigarra que durante o verão viveu na flauta, enquanto as formigas mourejavam, previdentes, não viesse o Inverno pegá-las desprevenidas.

Pois não é que, chegado o Inverno, lá foi a cigarra pedir às formigas merecido cachê. Afinal, alegrara a faina das formigas com sua cantoria durante todo o verão a pino, sem falar dos caraoquês no Outono ameno.

Dá vontade de dizer que essa ilustração aí embaixo, feita pelo Gustave Doré

(* 06/01/1832, Estrasburgo, França - 23/01/1888, Grenoble, França),

é animal, cara!

Gustave Doré, A cigarra e as formigas

Veja como ela nos surpreende ao transpor para o reino humano essa fábula da desumanidade

Carrega no cinzento do Inverno e do impiedoso desprezo que se vê no olhar enviesado e superior da mamãe, incansável, a tricotar o calor do lar.

 

E o rosto dos filhos, então, onde se leem recriminação (no do menino) e pasmo (no da menina).

Antes de bater a porta na cara da cigarra pedinte ─ cujo ar de abandono dá pena,

 

ouvindo, cabisbaixa, o sermão sobre a imprevidência da vagabundagem, não fosse ela uma inútil, mas sim uma profícua operária... ─,

a formigona-rainha, a do lar, a das prendas domésticas, ainda lhe disse:

─ Pois enfie a viola no saco e vá tocar à porta de outra freguesia. 

Foi o que fiz, trazendo-lhes essa história de proveito e exemplo, cuja moralidade se matizou ao longo do tempo.

No século XIX do Gustave Doré, o pragmatismo argentário da burguesia, entronada no poder, via a arte como trabalho vagabundo. Enfim, coisa inútil de gente inútil.

Nos dias atuais, a arte-cigarra passou a ser acolhida e bem paga. Mesmo sendo vagabunda.