Mirando Miró com  outros olhos

 

Kandinsky

Kandinsky, Contrasting sounds, II

lembrou-me Miró (* Barcelona, 20/04/1893 -- † Maiorca, 25/12/1983).

Miró, Personagens e cachorro diante do sol, 1949

Não só porque Miró, outro wagneriano em busca de uma arte total, também gostasse de música e buscasse ouvir sonatas e estrelas nas cores. Mas porque, a exemplo do pintor russo, o catalão, esforçou-se, em suas telas, por alcançar a essência da pintura, seja na explosão cromática, seja na gradativa recusa ao figurativismo, cuja desconstrução podemos testemunhar em Interior Holandês I (1928, MOMA)

Interior Holandês I - releitura

--- uma releitura de O tocador de alaúde (de Hendrick Maertens Sorgh, 1661).

Já em A Fazenda

A Fazenda, 1921-1922

e A Granjeira

A granjeira, 1922-23,

seu traço naif, de uma espontaneidade comovente mas canhestra, preludiava rumos em direção à superação de inabilidades.

 

Compensando com o dom para a cor

O ouro do firmamento, 1967

sua pouca habilidade para o desenho, Miró conseguiu, na simplificação do traço,

Maternidade, 1924

criar um universo cujo ludismo e alegria são capazes de despertar a criança perdida em nós.

O Carnaval de Arlequim, 1924-25

Pintura, 1953, Coleção Lola Fernández

Lembram-se do que disse Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas? O adulto é filho da criança.

Assim sendo, ante o absurdo que lhe figurava ser a realidade e a existência, por que não recriá-las, brincando infantil e poeticamente com o fiat lux demiúrgico, ao iluminar o abismo que vai do Ser ao nome com que se pensa batizar-lhe a Essência.

O belo pássaro decifrando o desconhecido a um casal de amantes, 1941

Por todos os nomes e títulos, parafraseando Saramago, diga-se que sabemos o nome que damos à Realidade, mas não sabemos o nome que Ela deveras tem.

 

Camponês catalão ao luar, 1968

Que a lua com sua intuição feminina e seu brilho de foice possa iluminar a caverna platônica de nossos sentidos --- esses Tirésias cegados ao sol da ofuscante realidade.