Cordel:

 Amedeo Modigliani

 

1.

Segreda-me o tarô que, em pleno século XXI, na Place du Tertre (Montmartre),

ainda ecoa, amortecido é verdade, mas ainda ecoa, para ouvidos de ver (sua bênção, Pe. Vieira!), voz enrouquecida, meu pregão (Utrillo não me deixa mentir),

entoado ao longo do frigidíssimo inverno de 1931:

─ A triste e comovente história de Modigliani! Só 30 francos! Edição ilustrada! Mulher bonita não paga, mas também não leva. Só 30 francos! Edição ilustrada!

Natural que, empedernidos de frio, os transeuntes fizessem ouvidos de mercador.

2.

                    Quem o mendigo de Livorno? Esse aí
                                                               
                              

Modigliani, O mendigo de Livorno

ou Amedeo Modigliani

que nasceu em Livorno (12/7/1884) e se viu despojado das graças divinas? Doentio desde criança: pleurisia, tifo, tuberculose.

Adulto, transferiu-se para a Paris dos sonhos de qualquer artista.

(Os tempos e os costumes são frívolos como a moda. Passageiros e mudáveis, transliteram-se. No futuro, uma música ambientará o sonho parisiense em Nova Iorque e vai traduzi-lo em:

If you can make it there, you can make it anywhere, it’s up to you...)

Is it really up to us?

Assistidos pelos insondáveis desígnios da Divindade,

Picasso

e Diego Rivera

e Juan Gris

 

diriam, triunfantes, que sim.

A exemplo de Chaim Soutine,

                                                                                                              

Modigliani, Chaim Soutine, 1916

Modigliani, em busca de seu caminho nas artes,

andava costeando a fome, pão magro, roupa surrada.

3.

                                                         Conheci-o por intermédio de Leopold Zborowski

que procurou ajudá-lo, mais mecenas e amigo que propriamente art dealer.

(Só agora me lembra que esquecia de dizer: eu andava por Paris rabiscando contos e versos, fingindo entender de arte e, para atender comezinhas exigências estomacais, decifrando cartas de tarô ─ Utrillo não me deixa mentir ─ nessa tendinha aí sob a placa de Bernot:

O futuro, essa divindade indecifrável, sempre foi o emprego da esperança e prece dos necessitados.

Afinal, lembram-se?, if you can make it there, you can make it anywhere…)

No outono de 1917, para encorajar Modigliani, Leopold promove uma exposição de suas telas. No dia da vernissage, os nus expostos

Modigliani, Reclining nude with loose hair

Modigliani, Recumbent nude

Modigliani, Sleeping nude with arms open

provocaram escândalo, a ponto de a polícia ameaçar confiscá-los. A exposição não foi fechada. Mas, porca miséria, só duas telas foram vendidas.

Temperamento difícil, agravado pela revolta de não ter o talento reconhecido, costumava ficar horas no  La Rotonde,

desenhando o retrato dos frequentadores

e tentando vendê-los:

                                                           ─ Sou Modigliani, judeu, cinco francos por seu retrato.

Encharcado de álcool, movido a haxixe, protagonizava com Utrillo 

(quem nunca retratou, talvez para não reconhecer-se no

amigo alcoólatra),

 

Maurice Utrillo (Paris, 26/12/1883 – Dax, 5/11/1955)

bebedeiras capazes de provocar coma alcóolico em Baco e Sileno. Razão tem Oscar Wilde ao dizer que “Todo retrato que é pintado com sentimento, é um retrato do artista, não do modelo”. E se o estilo (essa outra espécie de autorretrato) é o homem, quem não reconhece

─ nos pescoços de girafa, nos rostos ovais, nos olhos oblíquos de esbranquiçada ou azulada ausência fixos no nirvana de algum paraíso artificial ─

Modigliani, Retrato de Lunia Czechovska

o autorretrato,

mesmo de perfil e apesar do negligente cachecol,

de Amedeo Modigliani?

4.

Em 1917 conhece Jeanne Hébuterne, olhar encantador de esfinge,

e que, aluna de pintura na Academia Colarrossi, se autorretratou  

Jeanne Hébuterne, Autorretrato, 1916

desfigurando expressionistamente sua beleza.

(Lástima grande se era assim que seus esfíngicos olhos a viam no espelho da própria alma.)

Ainda em 1917, julho, juntam os trapos num ateliê à Rue de la Grande Chaumière.

Com uma filha nascida em 29 de novembro de 1917 e batizada com o nome da mãe, unia-os o amor e a fé em tempos melhores.

(Dizem-me sibilas

minhas conhecidas do tarô que, no século XXI, a rua ficará valorizadíssima porque abrigou o ateliê de Modigliani ─ notem as reproduções na parede ─,

chegando um flat a custar mil euros por semana ou três mil por mês. Ah, ainda me dirão que a França, em 1999, substituirá sua moeda, o franco, pelo euro.)

Mais próximo da realidade, o retrato que Jeanne pintou de Modigliani, em 1919. Nele se vê, aí sim reconhecível,

a  expressão do desalento e do abatimento agravados pela tuberculose galopante. Contudo Modigliani, entregue à sua paixão, continua pintando febrilmente, sobretudo Jeanne.

Jeanne Hébuterne, em 1919

5.

Juro que carta nenhuma do tarô me preveniu a surpresa do previsível. Em janeiro de 1920, Renée, La Blonde (minha companheira-assistente na perquirição das cartas-sibilas do tarô),

e eu encontramos Modigliani prostrado em seu glacial-ártico ateliê da Rue de la Grande Chaumière. (Mais uma ironia do cego Destino situar-se o minúsculo ateliê de Modigliani na Rua da Grande Cabana?) Ao seu lado, Jeanne, grávida de nove meses. Pelo chão, restos de carvão, garrafas de vinho vazias, latas de sardinha abertas. Retrato do lixo que fora uma vida esquecida pelos deuses indiferentes.

Levamo-lo para o hospital, onde ─ inútil a esperança, me diz o tarô ─ vai morrer em 24 de janeiro deste 1920.

Jeanne parece calma. Melhor seria dizer apática, alheada, o mesmo olhar ausente, típico dos quadros de Modigliani.

Leopoldo Zborowski não a deixa retornar ao ateliê; hospeda-a num hotel próximo ao hospital.

No dia seguinte, Jeanne retorna para ver o cadáver de Modigliani. Fica à soleira da porta da enfermaria; não o abraça; olha-o longamente sem dizer nada.

Dois dias após a morte de Modigliani, às quatro da manhã, Jeanne atira-se do quinto andar da casa de seu pai.

6.

Noivado no sepulcro, Modigliani jaz no Cemitério do Père-Lachaise

com Jeanne Hébuterne.

(Redivivos Pedro e Inês, também à espera do fim do mundo para que o amor ressuscite eterno?)

Não estão sós. Póstumo reconhecimento,

têm, à volta, as companhias de Delacroix, Camille Pissaro, Balzac, Oscar Wilde e outros do mesmo naipe.

Apesar dos parcos recursos, propus-me a pagar o túmulo e pôr, em lugar do que aí está,

o seguinte epitáfio:

“Ai dos felizes, porque são

Só o que passa!

....................

A vida é breve, a alma é vasta:

Ter é tardar.”

 

─ Bonito! São seus os versos?

─ Quem me dera... São versos que, em tempos futuros, dirá um poeta português, cujo um nome de tantos encarnados é Fernando Pessoa.

Em nome da pretensa racionalidade francesa, cheia de bienséances e convenances, quase me internaram.

Onde já se viu o roto, que não tinha onde cair morto, querer engalanar o defunto esfarrapado...