Claude-Oscar Monet

*Paris, 1840 – 5/12/1926

Monet nunca esteve no rol de minhas paixões pictóricas. Vi-o num exposição na Suíça (Fondation Pierre Gianadda, Martigny), onde tive ainda a oportunidade de apreciar sua coleção de gravuras japonesas.

  Revi-o no Musée de l’Orangerie (Paris), prestes a afogar-me no abraço tentacular de suas Ninféias  que rodeavam  a sala, tornando-a um espelho d’água em que, narcísica, a Natureza refletia sua beleza.

Em que pese minha pouca afeição, acreditem, Monet, tinha uma visão privilegiada, embora suas telas deem a impressão de que reproduzem paisagens imersas na densa névoa de uma catarata que lhe empana os olhos (Diga-se, a bem da verdade, que só de 1912 a 1923 a bruma de uma catarata veio enevoar-lhe a visão.)

(A Catedral de Rouan, sob efeito da luz matutina, 1893, D’Orsays)

  (O Parlamento de Londres na névoa, 1904, D’Orsays)

(A Estação de Saint-Lazare, 1877, D’Orsays)

 

Sob a densa névoa esconde-se a demiúrgica ambição (vejam-lhe as barbas biblicamente patriarcais) que nutria,

  a de captar as nuances cambiantes do fiat lux genesíaco.

Ambição barroca a sua --- essa de querer eternizar a fugacidade do Tempo, que, heraclitiano, por natureza e essência, ora, não se iludam, é, só na aparência, calmo rio,

(A canoa sobre o Epte, 1887, MASP)

pois que deságua, transbordante e tempestuoso, e se recusa a deter-se, coagulado, em nossa distraída visão.

  (Os rochedos de Belle-Îlle,1886, D’Orsays)

Contudo, Monet teve boas razões para acreditar que o Tempo não passava de um lentíssimo cágado. Afinal, o dito Tempo levou 86 anos para atravessar-lhe a vida.         

Assim sendo o sido e acontecido, ele teve muito tempo para conhecer os segredos de polinização das abelhas e beija-flores. Tornou-se um jardineiro de mão cheia. Semeou em Giverny, para alegria dos que passam turisticamente pela vida,

 

o que sabia nunca poderia colher ao vivo nas telas.