Oculta grafia

Esse

   

  que tinha a singularidade de ser Pessoas (por isso costumo chamá-lo Fernando Pessoa,ae), no poema “Autopsicografia”, diz-se tabula rasa a registrar as informes mensagens inscritas no além de sua alma. Ao cabo (de sua pena?), cumpria-lhe apenas o papel de grafar um discurso inefável por natureza. Afinal, que signo --- mero simulacro saussuriano da caverna platônica --- haveria de emergir à luz da verdadeira realidade?

carra_musa_metafisica.jpg (80233 bytes) (The Metaphysical Muse, Carlo Carrà)

Quanto a mim, silenciosa Musa, penso que todo papel já traz inscrita uma realidade por revelar. Sempre achei que no branco silêncio do papel ou da tela do computador

ryman_courier_2.jpg (7641 bytes) (Courier II, Robert Ryman)

há um discurso já pronto, à espera da revelação: um texto oculto à procura pirandeliana de um autor. Nossos ouvidos e dedos não passariam, pois, de intérpretes do discurso que ressoa, exigindo vir à luz.

Escritor ou pintor, cabe-nos, ao cabo, o papel de cavalo

bologna_hipocrene.jpg (120658 bytes) (Perseu, Giovanni da Bologna)

--- pégaso que segue no coice de inefável realidade, querendo fazê-la brotar em fonte de poesia.