O Crime do Padre Amaro

Retornando de Aveiro,

a caminho de Lisboa, parada em Leiria. Agradável surpresa, vemos, Flavia e eu, o cartaz:

A Câmara Municipal de Leiria, para perpetuar a ambiência de O Crime do Padre Amaro, teve a iniciativa de pedir à pintora Sílvia Patrício

(* Vincennes (França), 1974)

que registrasse a rota do crime

em quadros, ilustrando sua visão do romance.

Em treze telas, Sílvia Patrício deixou, com acuidade crítica e sensibilidade, sua versão iconográfica da paixão proibida entre o Padre Amaro e Amélia.

A paixão

Creio que já ninguém desconheça a folhetinesca história queirosiana que ruborizou moçoilas do século XIX, incendiando-lhes as partes pudendas num cio místico cheio de lacrimoso arrependimento,

O diluir da esperança

solidárias nas desesperanças e dores do parto de Amelinha, após sua desastrosa queda, enfeitiçada abóbora madura,

A queda

na lábia e nos braços do padreco.

O celibato e castidade clericais não condizem com a miséria bestial da carne, natureza fraca e pecaminosa, a sonhar o gozo devoto de raptos 

 

O sonho

místicos,

wet dream inspirado no lirismo concupiscente da obrinha Cânticos a Jesus ─, com as aspas devidas à ironia queiroziana─, “tradução do francês publicada pela sociedade Escravas de Jesus”.

 Só legítimas vocações (lembram do abade Ferrão?) não sobem, lúbricas lagartixas, pelas paredes

Escuto-te

ouvindo os apelos pecaminosos dessas evas sedutoras, disfarçadas Lilith

Lilith, John Collier

no hipócrita recato das vestes,

Praia da Vieira

mesmo tomando banho de lua na Praia da Vieira,

e desejosas de rojar ao chão os apelos transcendentais da alma:

Junto ao chão

Dessa perspectiva, natural que o clero não vocacionado e o beatério não passem de fariseus, podridão de túmulos caiados, não obstante o rico cheirinho a igreja e sacristia, em que, com falsas auréolas, chafurdam:

Sacristia

A tentadora serpente está no seio do lar beato, essa mistificação dos verdadeiros ensinamentos de Cristo.

Tentação

Eis, trocando em miúdos, o fulcro da tese defendida por Eça de Queiroz em O Crime do Padre Amaro.

Para defendê-la, serve-se das vozes de João Eduardo (com o panfleto “Os Modernos Fariseus) ─ exorcizado pela fúria inquisitorial das Ganzoços, de D. Maria da Assunção & Cia nada bela ─;

Mulheres em frenesim

  do Dr. Gouveia, que, apesar de suas barbas de Padre Eterno, com acusativo dedo,

Capela Sistina, Michelangelo

explica a criação e pecaminosa natureza do seres à luz do Cientismo do século XIX;

                                                        do abade Ferrão, santa vocação em meio ao farisaísmo da maioria do clero.

Não pensem, contudo, que o coro polifônico disfarça a perspectiva monológica (saravá, Bakthin!) do nosso Eça, cuja ironia, quarta voz, sem a impassibilidade requerida pelo discurso experimental do Realismo/Naturalismo, se impõe e cala as outras três vozes com seu vozerio barítono.

Querem ironia maior que pô-los, Amaro e Amélia, a chafurdar, cães no cio a trepar por aquela escada de Jacó rumo a gozos celestiais,

 

Lá vão os cães

aproveitadores da providencial paralisia e tuberculose de Totó,

na torre sineira do Tio Esguelhas, badalos anunciadores dos júbilos e pesares do Senhor?

Torre sineira

(Mais uma ironia do nosso amigo Eça? Tio Esguelhas, pai de Totó, tudo via de esguelha, ou seja, obliquamente, de soslaio. Via de viés a realidade, como lhe convinha, não fosse, pobre coitado e fiel servidor do Senhor, desagradar o santo pároco, cuja religiosidade semanal dos encontros com Amelinha tinha a santa missão de iluminar a alma de Totó, conduzindo-a ao paraíso.)

Machado de Assis pôs o dedo na sanha criminosa de Eça, que matou, sem razão verossímil, Amélia, no parto, e o rebento, às mãos de uma tecedeira de anjos.

A tecedeira de anjos

Machado escreveu:

Sendo assim, não se compreende o terror do Padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do Padre Amaro, uma é real e efetiva — o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível — o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma verdade moral?

Vamos lá, implacável Machado. Perdoe-se-lhe o crime, aliás reincidente, ao matar Luísa, em O Primo Basílio. Era preciso sacrificar duas personagens, para indignar-nos com a apoteótica ironia do epílogo, à sombra da estátua de Camões,

 

 o vate  das glórias pretéritas,

num Chiado onde se concentrava, na “palidez clorótica duma degeneração de raça”, a vida, a paz e a prosperidade de uma Nação moribunda. Era o que, afinal, naquele século XIX, restara da dilatação do Império, outrora glorioso, e da Fé, relíquia reduzida à beatice hipócrita.

À pergunta com que um dos representantes da hipocrisia social, o Dr. Godinho, tentou calar a revolta do Comunicado “Os Modernos Fariseus, de João Eduardo ─ afinal, que religião a iconoclastia do Realismo teria para substituir o Catolicismo do altar pátrio ─ o monóculo de Eça

Rafael Bordalo Pinheiro

 lobrigaria, no Deísmo, a salvação ─ tirada naturalmente da providencial cartola em que guardava seus truques demiúrgicos.

Posição filosófica naturalista, adequada a quem postulava a inserção no método experimental do Realismo/Naturalismo, ─ no Deísmo sobreviveria a essência do espírito e ensinamento cristãos: despidos dos maus hábitos, que fazem os monges Natário, Amaro e Cônego Dias, e despojados dos ritualismos da Igreja Católica, cujas missas, confissões e coorte de santos padroeiros servem aos interesses escusos de um clero hipócrita e corrompido.

Bengaladas do homem de bem, as “Cenas da Vida Devota”, inscritas em O Crime do Padre Amaro, alombavam, no adro da Sé de Leiria,

um Catolicismo corrupto e decadente. Com cuja cura, assepsia, mea culpa e contrito arrependimento ele, Eça, também sonhava. Afinal, era a religião de sua Pátria, avós, pais, como dizia o Dr. Godinho. E naturalmente a deles, entenda-se, Eça e Godinho.

Quem sai aos seus, não degenera. Podem crer, é atávico ─ aí estão o meio, o momento histórico e a raça que nos gestam e embalam ─ assegura o positivismo de Hipólito Taine que, então perfilhado por Eça, apela para nossa fé cega.

(Ah, esquecia-me dizer que o culto a Taine

 foi incensado na conferência “O Realismo como nova expressão de Arte”, proferida nas Conferências do Cassino Lisbonense, em 12/6/1871.)

 Vale a pena lê-la, como introdução à obra, e, percorrendo livro a livro, com olhos de ver,

perceber a progressiva defecção queiroziana do Realismo/Naturalismo, cuja porta de saída foi A Relíquia, (essa metonímica simonia a que se reduzira o Catolicismo),

─ ao decretar, no parágrafo final, que formas de conhecimento da Realidade, dentre elas Religiões e (notem) Ciências, são epistemologias nascidas do descarado heroísmo de afirmar.

Com céptica ironia, Eça vinha desmistificar o Cientismo ─ essa fé cega professada pelo Realismo/Naturalismo.