Para estar-se nas tintas

Imagine estar no Museu de São Petersburgo ou no MOMA ou na Tate Gallery ou no D’ Orsays, tendo pagado o mico de um guided tour.

Imagine que o guia tem um ar de gênio da pintura. Incompreendido, é claro.

Perceba que as caspas de sua genialidade nevam abundantemente os ombros de seu sobretudo preto. Estamos no Inverno. Não importa seja o de São Petersburgo ou de New York ou de Londres ou de Paris.  

Não reclame... Afinal quem mandou pagar o mico do guided tour... Não xingue porque ele passa correndo, sem explicação alguma, seja rasa ou profunda, por

Manet   (Le dejeneur sur l’herbe),

 

Picasso (Les demoiselles d’Avignon),

Delvaux (Vênus asleep), 

Andrew Wyeth (Cristina’s world),

Caravaggio, (O tocador de alaúde)

vá lá, Braque (Clarinet and bottle of rum on a mantlepiece)

 

Não é que de repente, não mais que de repente, ele cessa a correria muda e estaca diante de

(Carrée noir sur fond blanc, 1915).

 

The Guide (já legendado):

--- Senhores, senhoras, tenho a supina honra de apresentar-lhes Kassimir Malevitch, nascido em 1878 (Kiev) e falecido em 1935 (Leningrado).

O senhor Malevitch, dizem os experts, foi um dos vultos mais importantes da arte do século XX. Capaz de ombrear-se com Picasso, Dali, Delvaux, Rockwell. Só não enxerga sua importância pictórica quem, cegado pelo figurativismo realista ou suprarrealista, é incapaz de perceber quão profunda é a sua visão da realidade.

(Põe-nos, carneiros obedientes, a pastar diante de outra legítima obra-prima do senhor Mallevitch.)

(Quadrado Negro e Vermelho)

--- Com seus padrões geométricos e abstratos criou um movimento que batizou de Suprematismo.

Com o Suprematismo, Kassimir Malevitch pretendia reduzir a pintura à geometria, ciência que, para os sensíveis adeptos do movimento, se identificava à “realidade” suprema.

(Põe-nos, asnos obedientes, a ruminar ambas as telas.)

Quadrado vermelho (1917) e (Composição suprematista: branco sobre branco, 1918)

Vejam, senhores e senhoras. Pasmem diante da lição de como nossos sentidos nos enganam. Não passa de uma ilusão dos sentidos pensar que o quadrado vermelho tem os quatro lados iguais. Iludida a visão que vê como idênticos os brancos que se sobrepõem.

(Distraia a atenção das suprematistas telas e ouça o que diz a senhora bem ao seu lado:)

--- Benhê, vamos pintar nosso banheiro com aquele branco sobre branco? Um no teto, outro nas paredes? E aquele tom de vermelho vai ficar muito bem numa das paredes de nosso quarto... Sinal do fogo de nossa paixão...

(Vamos lá! Nem de todo perdido esse nosso guided tour. A arte de Malevitch revelou os recônditos segredos de um catálogo de tintas.)