Quem não tem acompanhado religiosamente este site que vive dando pinceladas sobre a pintura alheia, terá que visitar o bloco anterior, intitulado Mi(n)tologias.

Compu-lo...  (A ênclise prova que cultivo e desfolho esta flor do Lácio com o estrume da Gramática...) Fi-lo (nova prova!), respondendo ao desafio de Leonardo da Vinci, cujos Paragones (emulação comparativa das artes) proclamava a superioridade da pintura sobre três outras manifestações artísticas: Música, Literatura, Escultura.

Considerando que a visão é o sentido superior a todos os demais, pois escancarada porta de entrada para a percepção e intelecção, só a Escultura, com seu poder tridimensional, seria capaz de pôr em risco a supremacia da Pintura.

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“The Uncertainty of the poet”,  De Chirico, Tate Gallery, Londres.

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“Charles Towneley’s Library in Park Street”, de Johan Zoffany, Townneley  Hall Art  Galery, Burnley.

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“O  torso de gesso”, Matisse,  MASP.

Mesmo assim a Pintura, nesse calccio artístico, goleia sua opositora por 10 a 5, pois joga com luz, forma, sombra, cor, massa, posição, distância, proximidade, movimento e repouso, enquanto a Escultura, na retranca,  mal se defende com forma, massa, posição, movimento e repouso.  

Matéria de ponderação, bem cabe pôr aqui

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“O Pensador”, de Rodin

Ademais, a Escultura em seu esforço criativo transpira demais, emporcalhando o artista com a lama formada pela brita e pó. Em suma, na colorida concepção de Da Vinci, a Pintura, apesar dos respingos e manchas da tinta, é uma arte limpa em comparação à sujeira promovida pelos escombros marmóreos, pétreos, fuliginosos ou graníticos da Escultura.

Chegados aqui (se é que alguém me acompanhou até aqui), os fãs da Música e da Literatura hão de indignar-se querendo saber que papel uma e outra desempenham nessa comparação feita pelo pintor e escultor Leonardo da Vinci.

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“The Concert”, de Gerrit van Honthorst,  Museu do Louvre.   

Ambas, Literatura e Música, são inferiores à Pintura pois dependem da audição, sentido menor quando comparado à visão, só esta capaz de transmitir as imagens para o cérebro com muito mais rapidez. Além disso, a visão, na Pintura, encontra uma conotação significativa cuja univocidade é inalcançável pelos signos arbitrários das Línguas e Sons.

Foi desafiado por todas essas considerações davincinianas que compus Mi(n)tologias.

Julguem se a Literatura não é capaz de ombrear-se à Pintura e à Escultura. Inclusive, apesar da aludida arbitrariedade do signo escrito, vejam se a desprezada Literatura não é capaz de traduzir e legendar o discurso visual da Pintura cuja univocidade defendida por Da Vinci não passa de mito --- outra mi(n)tologia com ares literários de cientificismo.

Então que me dizem dessa emulação, desse desafio entre a Literatura e a Pintura, após a leitura de Mi(n)tologias?