Paris,espaço da utopia

1.

 
Outra vez em Paris. E, vamos e venhamos, que não há nada mais parisiense do que ficar na mansarda

           

 de um hotelzinho no Quartier Latin (Senlis, à Rue Malebranche, 7-9), 

perto do Jardim de Luxemburgo,

 de Saint-Germain-des-Prés, onde fica o Café preferido de Hemingway.

  E, vá lá, ó intelectuais, da Sorbonne,

do Musée Cluny...

 (Quem manda ser gauche na vida, meu anjo!)

E daí?

E daí que da dita mansarda desse hotel, no inverno, à janela, vi tetos nevados que me pareceram pintados por .

Toits sous la niege. Gustave Caillebotte

E daí ainda, alma pouco romântica e nada nostálgica?

E daí que o dito hotel, para minha surpresa (acaso, mero acaso que bafeja os happy few), ficava quase à beira da escadaria

                                                                

                             

em que Owen Wilson (Midnight in Paris, de Woody Allen)

se refugiava do filisteísmo frívolo e argentário da noiva, à espera do táxi (abóbora reencantada de nosso Cinderelo)

que, à meia-noite, o faria viajar pelos roaring twenties e pela Belle Époque parisienses a bordo de melhor companhia: essa utopia, esse lugar nenhum, para onde foge nossa idealização romântica, insatisfeita com a contemporaneidade que (e em que) vivemos.

2.

Diga-se que não morro de amor incondicional pela filmografia de Woody Allen. Só gosto de algumas películas, dentre as quais Midnight in Paris, que ironiza a tacanha ignorância  norte-americano médio (não importa quão atulhada de dólares seja a burra), ensinando-lhe que os mistérios e segredos de Paris não sabem a hambúrguer (nem mesmo quando acompanhado de french fries). São outros os gostos e sabores

                         
           


                                                  

La brasserie, Jean Béraud

que só se descobrem com os sentidos destrambelhados à Rimbaud, flanando, calcorreando-a (como se diria num Português digno de Camilo Castelo Branco) vagarosamente numa embriaguez de sonho. De preferência à noite,

sob uma chuva miúda,

feita para lavar a alma e, depois, esquentá-la ao lume do conhaque, do vinho ou absinto.

Tudo isso, claro, em companhia de Suzanne Valadon,

que Toulouse Lautrec,

www.pinceladas-fms.com.br/lautrec.htm

há de nos apresentar.

Dela, nessa noite, ouviremos que foi modelo de Lautrec, Degas, Renoir, Puvis de Chavavannes...

www.pinceladas-fms.com.br/utrillo.html

Assim sendo,

que tal, recherche du temps perdu, um passeio pela Paris oitocentista, ciceroneado por Toulouse Lautrec, Edgar Degas, Renoir, Manet, Seurat, Caillebotte, Utrillo?

 
3.

Seurat, madrugador, sem levar em conta que, noite adentro, demos ouvido a Suzanne Valadon, há de querer levar-nos para a farofa domingueira de um saudável banho em Asnières

Une baignade à Asnières, Georges Seurat

e, depois de um rega-bofe (ao som de pagode?) com os casais Renoir e Aline Charigot, Caillebotte e Charlotte Berthier,

 Le déjeneur des canotiers, Renoir, 1880-81

 um passeio na ilha de Grande Jatte

Un dimanche à l’ille de la Grande Jatte, Georges Seurat

verdadeiro paraíso, segreda-nos Seurat, de mulheres fáceis, dispostas a servirem de pequeno almoço no mato,

Le déjeneur sur l’herbe, Eduard Manet

conforme assegura e testemunha Manet. Aliás, se quisermos, Manet

Autorretrato, Manet

nos apresenta aquela moça ali, nuinha em pelo, que, muito conhecida no meio e na roda, dá pelo nome de Victorine Meurend.

─ Se a matéria é sacanagem, deixa comigo, intervém Toulouse Lautrec. Conheço casa segura, discreta e de respeito. Superiormente dirigida por velha amiga minha.

Salão da Rua des Moulins, Toulouse Lautrec

Circunspecto, Edgar Degas

Autorretrato, Edgar Degas

www.pinceladas-fms.com.br/degas.htm

protesta:

─Alto lá, meu caro Lautrec. Sua bêbeda imoralidade não enxerga que os cavalheiros aí estão com suas respectivas caras-metades, ou seja, imagens espelhadas de si-mesmos e que no futuro Jung chamará de animas?


                                                                                                                 Before the mirror, Edgar Degas

Elas, ora, elas não podem deixar Paris sem uns programas de arte,

Opera “O diabo”, Edgar Degas

sem uma visita ao Louvre

Mary Cassatt at the Louvre, I, Edgar Degas

sem conhecer os bastidores do sonho e decepção de quem acabou dançando no balé

Waiting, Edgar Degas

e, sobretudo, sem fazerem umas comprinhas. Levo-as à Loja Millinery,

The Millinery Shop, Edgar Degas

onde há uns chapéus divinos, minhas senhoras, de griffe:

                                                                                               

At the Millinery shop, II, Edgar Degas

─ Aliás, enquanto as mademoiselles, se divertem nas compras, por que os cavalheiros não dão um pulo ao hipódromo:

At race, Edgar Degas

Caillebotte, que se sentara à nossa mesa,

 

Autorretrato, Gustave Caillebotte

até então calado, intervém para dizer que o le déjeneur sur l’herbe (de jejum no mato, segundo minha brasileira versão), tem versão para as famílias, a de Monet,

Le déjeneur sur l’herbe, Monet, 1865

e propõe-se a mostrar as incansáveis obras da modernização urbana de Paris, revivendo as idades da pedra

Rue Mosnier with road menders, Edouard Manet

e a de ferro, essa então

simbolizada, bem ali perto de onde morava, na ferragem da Ponte da Europa.

Le pont de l’Europe, Gustave Caillebotte

Da sacada de seu apartamento, no número 31 do Boulevard Haussmann, teríamos maravilhosa visão do boom imobiliário parisiense

Un balcon, Boulevard Haussmann, Gustave Caillebotte

Aliás, essa semana iria para sua propriedade em Yerres,

Les orangers, Gustave Caillebotte

 de modo que deixava à nossa disposição seu  outro apartamento no número 77 da Rue de Miromesnil,

Jeune homme a sa fenêtre, Gustave Caillebotte

 quase na esquina da Rue Lisbonne. Estaríamos em casa, afinal, não éramos portugueses?

─ Não. Somos brasileiros. Dos portugueses só herdamos essa saudade do que poderia ter sido.

                                                                    

Edouard Manet,  Music in the Tuilleries Gardens, 1862

Pierre Auguste Renoir, Dance at The Moulin de La Galette, 1876

Romântico, desterrado no tempo passado, achando-o melhor que o presente, deixo-os com essa utopia

antes de fechar o dia nos embalos da noite de Lautrec

Toulouse Lautrec, Cartaz de Jane Avril, Jardin de Paris, 1893.

Vista por olhos impressionistas sob os óculos de Woody Allen, fica-nos a

sensação de que a Belle Époque só foi bela porque emoldurada por Paris.

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 * Hemingway tinha por princípio nunca entornar tonéis antes de escrever ou enquanto escrevia. Donde a sobriedade do estilo.

 

** Ernest Hemingway a um amigo, em 1950:

 

“Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.”

 

A prova está aqui, Flavia. Um ano depois, a presença de Paris continua a acompanhar-me pela vida.

Sempre. Assim como você, meu amor.