Jules Pascin, o Príncipe dos três Montes

(Pseudônimo de Julius Mordecai Pincas:

*Vidin, Bulgária, 31/3/1885 - † Paris, 2/6/1930)

 

Quem, frequentador ou garçon do Le Dôme,

Cafe Le Dôme – quadro

não conhecia Jules Pascin?

Eu o vi pela primeira vez em 1923,

Foto de Pascin  por Man Ray, 1923

um mês depois de eu ter começado a trabalhar no Dôme. Ele estava na companhia de duas modelos

Duas modelos no estúdio

Dois nus, um em pé e um sentado

(qual delas já não lembro), quando o Hemingway chegou. Era um começo de noite primaveril. Pascin já entornava e as meninas bebericavam fine-à-l’eau. Apesar da insistência de Pascin:

--- Have a whisky. I’ve already told you I have money. ---,

Hemingway pedira cerveja:

--- Une demi-blonde.  --- E continuou fiel a ela, noite adentro.

Uma figuraça o Jules Pascin. Sempre à volta de sua mesa uma revoada de amigos, amigas, admiradores --- por sua conta, quando abonado com a venda de algum trabalho. Famoso pelas festas de arromba que promovia.

Loose women, 1911

Vivia um ménage a trois que não era segredo pra ninguém: ele

mais Lucy Krogh, a amada amante,


Portrait of Lucy Krogh

e Hermine David, a legítima (como se dizia então), figura sempre tristonha e ensimesmada.  

Hermine com chapéu azul

Para os amigos


 
 

Tentação de Santo Antônio

um santo

--- Antônio em meio às tentações, das quais nunca fugia. (Ora, pernas, para que vos queria então?

Vestindo-se 

Proclamava-se (e era) o príncipe dos três Montes: de Montparnasse, com assento no Dôme,

Café Le Dôme,  foto

de Montmartre, com trono no ateliê, e do Monte de Vênus.

Carmen

(Dizia ser um velho ninho das andorinhas, que, em bando, faziam seu varão...)

Não acreditei quando soube que se matara no passado dois de junho, às vésperas de uma exposição individual. Ainda no dia primeiro passou por aqui, pagou contas penduradas, distribuiu gorjetas, abraçou cada um de nós. Só agora percebemos que se preparava conscientemente para o ato. Desmentia seja o suicídio um tresloucado gesto, como se diz por aí.

Autorretrato

Foi meticuloso. Cortou os pulsos. Primeiro, o esquerdo, lado do coração. Com o sangue deixou uma mensagem para Lucy: “Desculpe-me.” Em seguida, cortou o pulso direito. Acho eu que, como estava demorando pra morrer, acabou por enforcar-se, amarrando a gravata na maçaneta da porta do banheiro.

Lucy, a amada amante,

Lucy Krogh com xale de pele

veio encontrar o corpo três dias depois. Um cretino, desses fariseus cuja vida é um túmulo caiado, comentou: “Já fedia como a podridão da vida que levou.” Quase foi linchado.

O enterro foi ontem, dia 6 de junho desse corrente ano de 1930. Consternação geral. Digno de um príncipe, o préstito percorreu

Cortejo fúnebre no Boulevard de Clichy

os cinco quilômetros que separam seu ateliê (36, Boulevard de Clichy)

Boulevard de Clichy

ao cemitério de Saint-Ouen

 

Cemitério de Saint-Ouen, foto de Martin Ottmann 

Montparnasse, Montmartre e Monte de Vênus fecharam galerias, bares e pernas em sinal de luto.

Deposito aqui minha homenagem

Pascin, Vaso de Flores 

com essas palavras sentidas --- solidária tristeza com a de Hermine, a legítima.

 

Hermine, 1919

Com a vida que levou, quem poderia imaginar fosse previdente. Deixou testamento, legando sua obra para Lucy e Hermine. Meio a meio. Assim como se dividira para uma e outra.

Pascin – foto, 1930