Pentateuco estrambótico

 

1. Tentação

Adão e Eva foram desterrados do Paraíso graças a uma maçã. The Fall of Man, Hugo Van der Goes

 

Séculos depois a tentação de consumo continua a ser a Big Apple.

Radiator Building, Geórgia O’Keefffe   Windows, Charles Sheler

Que os arranha-céus de Manhattan (essa ilha de nossa fantasia) sejam a escada de Jacó: saída de emergência rumo ao paraíso terrestre.

 

2. Mezinha milagrosa

An apple a day keeps the doctor away.

Maçãs e Laranjas, 1899, Paul Cézanne, D’Orsay.

Só Deus parece não conhecer esse santo remédio --- bendito fruto da árvore da ciência.

O pecado original e a expulsão do paraíso, Michelangelo, Capela Sistina.

Talvez por não decifrar a garatuja na receita. Ou por continuar a ver a maçã como fruto de nossa podre natureza.

 

3. Apólogo fabuloso

Quem não sabe que, gênese de nossos pecados, foi a gula de conhecer (no bíblico sentido) que nos levou à condenação por trepar na árvore da Ciência. Quem não sabe que foi uma cobra que fez de Eva esse

Lilith, John Collier

desejável fruto proibido.

Conta, porém, uma passagem bíblica que o Senhor, num momento de desfastio e prestidigitação, fez com que um bastão, o de Moisés, se transformasse em serpente. E, para espanto geral da plateia circense, logo tornasse a víbora a ser bastão. 

O número de mágica (um dos cinco, já que do Pentateuco?) era, na verdade, um apólogo (Torá? Ensinamento?) que doutrinava sobre a conversão dos pecados humanos em virtude --- essa tabula rasa de divino arrependimento.

Moisés, de José Ribera.

Moral da mágica conversão?

A pecaminosa árvore da Ciência, miniaturizada na sinédoque de um miraculoso bastão, viu-se trepada por uma serpente cujo maléfico veneno se tornara soro antiofídico. Milagre homeopático do similia similibus curentur: --- cobra na vara enroscada converteu-se em bastão de Asclépio, símbolo da Medicina .

Como se deduz desse apólogo fabuloso, tudo tem remédio nessa louca vida.

 

 

4. Esse mundo é uma bola

 

Sábio desígnio divino, os altos e baixos da vida são sintoma de que vivemos de fato num planeta bipolar? 

  

5. Proh Pudor

Brônzeos, os costumes. E o tempo pode empederni-los com o azinhavre do preconceito e da censura.

Da bíblica Eva, de Rodin,

à  clássica Vênus pudica, de Georges Seraut   toda nudez precisa mesmo cobrir-se de vergonha?

EVA 2010, de Markus Selg, Saatchi Gallery, Londres.

 

6. Pão nosso de cada dia

O pão meu de cada dia, compro-o religiosamente na mesma padaria. Que à conta do lugar-comum tinha que ter, sob velha direção, o Manuel ou o Joaquim.

Mas nada parecido com o lugar-comum foi a média dessa padaria com seus fregueses do pão nosso de cada dia. Brindou-nos com uma folhinha que estampava o Trigal com corvos, do Van Gogh.

 

Um trigal vesânico,

a lembrar na folhinha,

dia a dia,

o Van Gogh que o Diabo amassou?