Fernando Pessoa(s)

(*13/06/1888, Lisboa - † 30/11/1935, Lisboa)

 

 

1.   A singularidade de ser Pessoa(s)

Fernando Antônio Nogueira foi Pessoa, cuja singularidade estava em ser plural. Fernando Pessoa(s) seria a maneira mais adequada de chamá-lo, considerando que foi tantas pessoas sendo um só Pessoa. Fernando Pessoa(ae), declinaria um latinista, em homenagem ao bronze clássico de sua imortalidade assente,

a despertar a curiosidade turista dos que passeiam pela vida sob o olhar escarninho do  Antônio Ribeiro Chiado

(Évora, 1520 – Lisboa, 1591),

 esse fradinho fescenino e frascário que, dramaturgo, poeta satírico e observador do ridículo humano, está a estender-nos a mão,

não finja que não vê, ele está só pedindo a esmola de sua atenção.

Para ser poeta singular, Fernando Pessoa recriou-se plural no recurso à heteronímia. Justifica-se, pois, que se venha a tratar aqui de Pessoa(s) o Fernando  ─ que foi Alberto Caeiro e Ricardo Reis e Álvaro de Campos

Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, imaginados por Almada Negreiros

e Fernando Pessoa (o xará dele mesmo, um outro também).

Fernando Pessoa, Júlio Pomar

 Fora outros que lhe ficaram semicriados (o Bernardo Soares, o Barão de Teive, o Alexander Search, o I. I. Cross, o Antônio Mora, o Frederico Reis, o Charles Robert Anon, o Pero Botelho, o Vicente Guedes), não fosse tão curta a vida para quem aos quarenta e sete anos

 haveria de morrer de cirrose hepática (30/11/1935).

─ Se nasceu e morreu, ora, pois, pronto, existiu.

─ Eis aí, senhores e senhoras, uma questão controversa. De fato, fotos comprovam sua existência civil, no colo de mamã, Dona Maria Madalena Pinheiro Nogueira,

ou já mais crescidinho.

Documento nenhum, porém,

lhe atesta o real (e verdadeiro?) Ser. Um Fausto português que trocou a identidade de sua alma luciferina por um pretenso conhecimento da Realidade.

Perguntas que não querem calar, até mesmo para ele:

Quem foi esse Ser que, na pia batismal, recebeu o nome de Fernando Antônio Nogueira Pessoa?

Por todos os nomes pelos quais se dispersou, a verdade de seu Ser ficará perdida no alcácer-quibir de algum nevoeiro?

Outro D. Sebastião que desejamos se revele na burra ajaezada pela sabedoria de algum especialista?

Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza, Júlio Pomar

Nessa tela aí embaixo,

intitulada Fernando Pessoa não-ele-mesmo, Antônio Costa Pinheiro registrou a inexistência cartorial desse Ser que, por querer ser todo mundo, foi ninguém.

Vê-se por seus óculos que navegar e voar (espelhado azul do mar no céu) era preciso. Já viver, ora viver... Viver essa vida rasteira, deixem lá para os Esteves das tabacarias, esses cadáveres adiados que procriam ─ esses que, tristes e abúlicos, sem fumos de metafísica na algibeira, vivem engaiolados no remanso seguro e tedioso do lar, “ sem que um sonho, no erguer de asa, faça até mais rubra a brasa da lareira por abandonar”.

 

2.  Todo Mundo e Ninguém

Dizendo não conhecer em si próprio personalidade nenhuma (se não conhece nenhuma, reconhecerá, portanto, em si, múltiplas), Fernando confessou, na célebre carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, que, desde criança (vejam lá a pose de quem, na gávea míope do olhar, já se sonha um marinheiro das primeiras viagens),

já desde criança mal saído dos cueiros, lhe vinha essa tendência de ser Pessoa(s), de despersonalizar-se pluripersonalizando-se. Brincadeira

cuja primeira personagem de sua tripulação imaginária teria sido um tal Chevalier de Pas, com quem aos seis anos se correspondia num diário de bordo e naufrágios.

Os traços histeroneurastênicos de seu caráter, sua confessa tendência para a despersonalização e fingimento, transformaram-se

num instrumento gnosiológico de análise e compreensão da realidade.

Só um Eu-Poeta que se multiplicasse e fosse capaz de sentir por um certo número de Outros-Poetas, seria capaz de enxergar a realidade sob ópticas diferentes,

Fernando Pessoa e os óculos dos heterônimos, Antônio Costa Pinheiro

pluripersonificando-se em heterônimos-símbolos que, portadores de visões matrizes da realidade, expressassem cosmovisões arquetípicas do inconsciente coletivo ocidental.

Para isso, para fingir ser outros e despersonalizar-se precisava dar um ultimatum aos dogmas românticos da personalidade e da individualidade ─ tarefa que esse incorpóreo criador aqui nomeado Fernando Pessoa(ae) ou Pessoa(s) atribuiu a Álvaro de Campos.

Quanto à estética do Fingimento essa ficou por conta de Fernando-Pessoa-o xará-dele-mesmo-um-outro, com sua famosa Autopsicografia, onde se lê que, como o eu do poeta e o que ele sente não conseguem objetivar-se fielmente no poema, meras sombras ou simulacros do realmente sentido ou entrevisto, todo ato poético é fundamentalmente um ato de simultâneas despersonalização e alteridade. Irremediavelmente perdido numa zona inefável, o eu do poeta e sua dor realmente sentida (ovo em que pulsam as supostas vida e realidade enclausuradas) só se objetificam, só se manifestam, nas asas da imaginação, como outro(s).

Perspicácia, René Magritte

Enfim, a Dor deveras sentida pelo poeta, quando transposta para o papel, já não é mais ela a mesma. À Magritte, poder-se-ia dizer que, envolta nos fumos da aparência,

René Magritte

  essa Dor refletida no papel não é a Dor sentida. Não passa de rascunho rupestre da caverna platônica ─ simulacro, pois, da verdadeira Realidade, cujo ofuscante sol é capaz de cegar-nos.

Proposta fica aqui, portanto, a tese de que a heteronímia é filha de dois pais: Álvaro de Campos e Fernando-Pessoa-o xará-dele-mesmo-um-outro.

 

3.  Ele-próprio, o Outro?

SamiR SavoN é doutor em Letras pela USP, mas, para ficar próximo à realidade educacional brasileira, milita no ensino secundário. Afinal, pergunta ele, que ensino não é secundário nesse País. Como diria o José Dias, agregado de nosso Otelo caboclo encadernado em D. Casmurro, SamiR SavoN tem lá seu comércio com as Musas, embora quase nada venda. Versado nas intertextualidades vem-se dedicando à tarefa de remendão do coturno de vários autores, procurando ser original nesse papel de carbono de outros originais. Leiam lá como saiu seu diálogo com a Autopsicografia:

 

Autopsicografia da Dor em Pessoa

O poeta é um fingidor?

Pessoa que se finge em (m)ente?

Ou a Dor * se finge dor

em pessoa que não A sente?

 

E quem lê o que escreve

a Dor que lida em pessoa,

sente a dor que nunca teve,

eco de Dor que não soa.

 

E assim, girando à roda,

ciranda a dor em pessoa.

(Razão, és meu trem de corda.

Coração, doa o que doa!)

_______________

*Opoeta? Há um punho

que o cria. Ei-lo inteiro

na trova: mero rascunho

de quem sou ser verdadeiro.

 

Não satisfeito, resolveu, num livrinho intitulado Palimpsestos: uma história intertextual da Literatura Portuguesa (2ª ed., SP, Paulistana, 2008), assumir as máscaras heteronímicas do Fernando Pessoa(s):

Caeiro, o guarda-dor do rebanho de seus pensamentos

Alberto Caeiro, Almada Negreiros

 

I

Em nunca fui guardador de rebanhos,

mas fiz de minha pena cajado

e com a imaginação a arder igual o Sol

tangi meus pensamentos como se fossem gado.

E sentado à soleira da Natureza

via-me pelos olhos do rebanho

que me criava.

A andar espalhado por toda a encosta,

no ruído dos chocalhos

soava minha alegria, a tilintar cimos de outeiro,

e à boca de seu lento ruminar

minhas ideias é que pasciam,

antes de recolherem-se, crepusculares,

ao sentido que lhe cabia como redil.

 

II

Não estava na minha natureza

ser o Argonauta das sensações verdadeiras

nem o Descobridor da Natureza

que florescia para além dos meus sentidos

 cabisbaixos de mentar.

Seu intérprete sim, isso fui,

que a Natureza precisava de mim para contar-se.

E contei-a

“monte” por monte,

“vale” por vale,

“árvore” por árvore,

“flor” por flor,

“erva” por erva,

tradutor fiel, palavra por palavra,

da mudez de inefável realidade.

 

III

Quando alguém doente dos olhos

me acusa de fingidor,

de que minto tudo o que sinto,

me confunde com outra pessoa

e não entende que, se colhi neste livro a Natureza,

cingindo-a num grande feixe de versos, brancos

como página por criar,

é porque cada folha deste volume

é árvore,

descascada em sua constituição e sentido mais íntimos

mas árvore,

a cumprir-se em papel

de poeta.

 

Reis, súdito ao Fado

Ricardo Reis, Almada Negreiros

 

 

No Brasil, desterrado da pátria antiquíssima

de minha crença, resta-me o consolo

de pensar nos deuses

a que Epicuro, sereno,

e o grave Zenão se erguem, marmóreos.

 

Sob um outro sol que não este tropical,

o que alumiava o Parténon e a Acrópole,

aqueço-me trêmulo

só de cogitar na olímpica

distância que entrona a felicidade.

 

Zenão me fala, Lídia, e também Epicuro,

que nada queiramos, se nos queremos livres,

e que, por bastante,

somente o nada ao fim sobeje

como fardo na fatal travessia.

 

Zenão ensina, Lídia, que nada devemos

ao Fado e que só a dor, se não aceitá-Lo,

nos há de caber.

Caiba-nos, pois, ser cântaros

entornados, vazios de toda sede.

 

E Epicuro, Lídia, com voz cariciosa

ensina que a vida é rio, rosa cuja foz

é este crepúsculo

que nos vê a entardecer

sentados aqui à beira do tempo.

 

Verdade, Lídia, que podíamos amar-nos,

ébrios de rosas e perfumados de vinho,

trânsfugas da morte

na simulada eternidade

da memória que sobreviveria.

 

Para que, Lídia, ferirmo-nos com a lembrança

de quem dar-se primeiro a Caronte como óbulo?

Sem desassossegos

fitemos o curso das coisas

que, vãs, vão também desaguar no Fado.

 

(Simplesmente lembremo-nos um do outro

assim quedos à beira-mundo,

pagãos tristes da decadência,

e com essas rosas volucres

dos jardins de Adônis

a fenecer com teu regaço.)

 

Se não nos couber por Fado viver conforme

ensinaram os deuses a Zenão e Epicuro,

caiba-nos ao menos

viver o papel consagrado

a fingir aqui a Felice Idade.

 

Álvaro de Campos em Pessoa,(ae)

Álvaro de Campos, Almada Negreiros

 

Nunca fui triunfal como uma ode à Walt Whitman

o Captain! My Captain! ,

nem triunfante como o Esteves da Tabacaria

que, sem fumos de metafísica na algibeira,

foi casado, fútil, cotidiano, tributável,

como costuma ser toda pessoa que não é Pessoa(s).

Nunca fui atlântico como os périplos que, super-Camões,

[sonhei

e não empreendi

ancorado na Lisbon Revisited pelos olhos de Cesário

O Captain! My Captain! Our fearful trip is done!

Nunca comi uma dobrada à moda do Porto

como quem come chocolates com a alma criança

e desembrulhada de quantos invólucros

Caeiro, meu mestre de todos, sonhava desvesti-la.

Eu, engenheiro naval (por Glasgow), o civilizado

(mas menos que o monárquico Reis, súdito de sôbolos rios

[que, também vãos,

correm à margem de dias coroados de Lídias e rosas volucres);

eu, o que sonhou mais sentimentos e sensações

do que poderia sonhar o sentimento dum ocidental lisboeta,

aceso o crepúsculo nas luzes das grandes cidades;

eu, o que se espraiou em odes histéricas e grandiosas cujos

[versos nã

[o cabiam no fim da pág

[ina, estreita demais p

[ara o vasto mundo cont

[ido na angústia de um

[coração derramado;

eu,

“que falhei em tudo”,

que fui sempre “o que não nasceu para isso”,

que fui sempre “só o que tinha qualidades”,

eu, o Captain! my Captain! , só fui a realidade de tudo isso

sem fazer ou ser

nada disso.

Fui o sonho de uma dispersão enclausurada numa mansarda,

sempre à janela de tudo quanto via e passeava por dentro,

um Sá-Carneiro, o Captain!, my Captain!,

que simplesmente soube ser

Eu-próprio o Outro

que nunca fui.

 

Bernardo Soares, o guarda-livros do desassossego

Fernando Pessoa, Júlio Poma 

Ele (quem Ele, às minhas costas sussurrando?) disse que eu, Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros no quarto andar alto da Rua dos Douradores, sita na baixa lisboeta, era um semi-heterônimo seu e que só lhe aparecia quando estava cansado ou sonolento. Mal desperto, pois, de um sono alheio, sou o sonâmbulo de seus sonhos adormecidos  marinheiro ilhado de tudo, até de minha própria alma. Que, diga-se já, é a dele também.

Ele (quem Ele, às minhas costas sussurrando?) desejou fazer-me boneco de sua ventriloquia mediúnica “autopsicografia”, dando-lhe um verniz psiquiátrico-esquizofrênico. Mas, em verdade, fez de minha-alma-sua-também um manicômio de caricaturas, com mapas astrais para garantir-lhes (ó, incrédulos) existência e destino.

À Álvaro de Campos, fez-me escrever enclausurado na mansarda abúlica do segundo andar do mesmo prédio em que trabalho na Rua dos Douradores, um misantropo nauseado com a pequenez burguesa da vida, dando-me, contudo, todos os sonhos do mundo, inclusive o sonho irrealizado de ser tudo e todos.

À Alberto Caeiro, fez-me registrar que medito só com os sentidos ou que penso de um modo táctil ou sensível, óptica com os olhos, ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que apreendesse nitidamente o real como real.

À Ricardo Reis, fez-me dizer que, algemado ao capricho de deuses, súdito de um Fado indiferente, só quisesse nada querer, ataraxia que se confunde com o tédio, abulia e inação de quem, desterrado da pátria antiquíssima de seu sonho platônico, me submete à tirania do prosaísmo fútil e tributário do patrão Vasques.

À não sei quem (Eu-próprio quem?), fez-me escriturar no meu livro de seu desassossego;”Crio em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não. Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena nua onde passam vários atores representando várias peças.”

Enfim, um drama em gente nesse palco da vida, Ele (quem Ele?) fez-me sê-los a todos por dentro, imagens estilhaçadas no espelho das retinas

Fernando Pessoa, Carlos A Botelho

com que me via vendo-os, com que me sonhava sonhando-os.

Ele (quem Ele?) a mim atribuiu sua tendência orgânica para a despersonalização e para a simulação, sua incapacidade para a ação, sua abulia e tédio paralisantes.

Abulia e tédio é viver inexistindo. Logo, precisando existir exteriormente, precisando roçar sua misantropia olímpica no comum reles das gentes, encarnou-se em mim, vestiu minha gabardine,

 traduziu-se-me como guarda-livros num armazém de fazendas, passeou-se-me pela baixa lisboeta

e, findas as horas burocráticas da persona escriturária, pontualmente imortalizou-se-me na bica e bagaço

do

 Assim como Ele (quem Ele?), não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada. Logo, pertenço a tudo, desejo tudo, sou tudo. Só que ninguém nunca dirá quem sou-eu-ele, nem saberá quem fui-eu-ele.

Navegar é preciso, viver não é preciso? Argonauta em busca do velocino das sensações, fui o marinheiro de suas viagens, enjoos, vômitos. E, dormindo em sua sonolência, quem sabe não foi Ele o sonho a que, sonambúlico, dei vida de carne e osso. Quem sabe, ele sim, não passou de um semi-heterônimo meu, Bernardo Soares, subalterno ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

 

4. Autorretrato sem rosto

Dizia Álvaro de Campos que “a melhor maneira de viajar é sentir”. Fica aí, pois, a viagem de SamiR SavoN, procurando ver e sentir pelos olhos dos heterônimos.

Óculos de Álvaro de Campos, Costa Pinheiro

 

Em Bico de Pena,

(Sou feliz ou infeliz?

Não o sei. Tampouco minto.

O texto é quem sabe e diz

quem sou, aquilo que sinto:

 

é  Verbo que me conjuga

em pessoa que só conheço

soletrando, ruga a ruga,

minha alma e seu avesso.

 

Apesar de carne e osso,

não sou eu fora do texto

ou sou apenas esboço

 

de quem me sei soto-posto:

tosca obra dum bissexto,

autorretrato sem rosto.),

nesse “Bico de Pena” fica, pois, o autorretrato sem rosto de SamiR SavoN

 

─ um autor-comediante formado à luz do paradoxo de Diderot: melhor a(u)tor aquele a fingir que doa noutros o que lhe não doa a Sensibilidade (ou a Natureza)