Petit Palais

Petit Palais eufemismo modesto para um belíssimo palácio que alberga o melhor acervo pictórico do século XIX, do Realismo ao Simbolismo, passando pelo Impressionismo,

sem deixar desamparado quem goste da pintura histórica do século XVII

O massacre dos inocentes, Nicolas Poussin

e da pintura de costumes holandesa, com suas cenas de proveito e exemplo, como essa paródia aos pedinchões de Pentencostes.

Enfant quêteur, Jan Steen

Falha em minha educação, não o conhecia ainda. Nessa última viagem a Paris, Flavia e eu fomos visitá-lo.

No local do antigo Palácio da Indústria, demolido em 1899, surgiu Le Petit Palais, triunfo intelectual da Prefeitura de Paris,

Triunfo intelectual de Paris, Ferdinand Humbert

abrigando esculturas

Femme au singe, Camille Alaphillipe

(esfíngica dama trazendo à mão seu temperamento ardente, apetite sexual incontinente, ou procurando trazê-los domesticados na coleira?);

porcelanas

e, prato cheio, as carnalidades realista de Gustave Courbet e liricamente sonhadora de Hippolite Delaroche:

O sono, Courbet

Mulher com papagaio, Courbet

Girl in the basin, Delaroche

Nesse capítulo de nus cabe mostrar Aristide Maillol:

La Vague

Não poderia faltar Cézanne com suas Três banhistas:

A lembrar-me a miserabilidade de Raul Brandão, os pobres de Carrier-Beleuse

Le taneur

(casal procura diversão, alheio ao trabalho infantil? Afinal, alguém tem de trabalhar.)

 e os de Fernand Pelez marejam os olhos com


                                                                    Grimaces et misére

An asile

O vendedor de violetas

O vendedor de laranjas

o que nos leva a entender a homenagem de Courbet à utopia socialista de Proudhon, no mínimo a desejar às crianças de Pelez uma infância tão feliz quanto a de seus  rebentos, bem nutridos e nada preocupados com o pão nosso de cada dia (milagre de uma providencial e cega filosofia da pobreza?)

Proudhom e suas crianças

 -- hino à igualdade e fraternidade,

Combate diante do Hotel de La Ville, Victor Schnetz

conquistadas e ferozmente defendidas em 1830.

Celebração da Revolução, Philippe Roll

Merecedora mesmo de comemoração a Revolução de 1789? Surgira com a promessa de farto pão e acabou sendo o que o diabo amassou com o suor do esforço alheio.

Carregadores de farinha, Ernest Carrier Belleuse

Molduras (verdadeiras obras de arte à parte) enquadram ainda Claude Monet, com suas variações do pôr do sol, na falaciosa tentativa de captar o fluxo heraclitiano do tempo e da vida;

Sol se pondo no Sena em Lavacourt, efeito de inverno,1880

e  Gustave Moureau, cujo Simbolismo (verleiniano De la musique avant toute chose?) vai buscar inspiração em Arion, canto de cisne que, a encantar criaturas do mar, acaba livrando-o da morte, chegando, são e salvo nas costas de um golfinho, a Corinto, bem antes dos marinheiros que desejavam matá-lo, para despojá-lo do prêmio que ganhara na Itália, num concurso de bel canto.

Arion, 1891

Matéria hípica e não épica, o elogio de Alfred Dreux à burguesia aristocratizada, fruto da Revolução, a cavaleiro da sociedade:

  

Não vemos o Odilon Redon soturno, macabro. Em compensação temo-lo solar:

Carro do sol

Como ninguém é de ferro, e não viemos em lombo de filosófico burro, finda a visita,

que tal uma taça de vinho da casa (Côtes de Rhônes?), a brindar o acervo no domesticado jardim do Petit Palais?