Pintura de Gênero Holandesa

Gosto muito da pintura de gênero holandesa com seu barroco às avessas, a sobriedade realista de seu traço

ao captar o cotidiano do mundo burguês, quase sempre com uma lição de moral.

                                                                                Mundo às avessas – Luxúria, Jan Steen

Taberna, Jean Steen

Kepler definiu o olho humano como um produtor mecânico da pintura, atrelando assim o processo de pintar ao de ver. Ao cabo, uma alegoria sui generis a pintura, ao procurar reproduzir a realidade, tal qual seja ela, em seus pormenores.

Incapazes de devassar a olho nu os meandros e mistérios da realidade,

Mulher Tupi, Albert Eckhout

 o Barroco, com sua curiosidade frestadora, sempre propalou a limitação dos nossos sentidos. Por isso inventou o microscópio e o telescópio para ampliar nossa capacidade de perscrutação próxima ou distante.

Do Barroco a pintura holandesa herdou essa ânsia oblíqua, o trompe l’oeil enganoso, de conhecer e perscrutar a realidade, que se apresenta enganosa aos nossos sentidos.

Afinal, como diz Lupércio Leonardo de Argensola (26/8/1562 – 4/2/1631): Esse cielo azul que todos vemos ni es cielo ni es azul. Lastima grande que no sea verdad tanta beleza.

Alegoria da Pintura, Vermeer

Vermeer nos engana, aproveitando a falácia de nossos sentidos. Intitula a tela “Alegoria da Pintura”, retratando Clio, a musa da História, com um trompete à mão.

(Sabe-se que alegoria é uma expressão figurada que transmite um significado que não o literal. Com frequência encontra-se na pintura, escultura, formas miméticas que têm a ver com os olhos, lembrando-nos a definição ver/pintar de Kepler.)

Na verdade, ele está a contar-nos a divisão dos Países Baixos. Notem-se o mapa ao fundo, rasgado ao meio, a águia de duas cabeças, símbolo da dinastia dos Habsburgos, antigos dirigentes da Holanda.

No mapa ao fundo, rasgado ao meio, as dezessete províncias unidas dos Países Baixos, marcando a divisão da Holanda para o Norte e o império Habsburgo ao Sul.

Uma curiosidade que disseca o interior da realidade, o pincel como um bisturi, diagnosticando-a

Lição de anatomia, Rembrandt

como se ela (a realidade) estivesse enferma

Mulher hidrópica, Gerret Dou

                                                                      em sua aparente felicidade clorótica.

 

Merry Company, Pieter Hooch

Ao cabo, autofagia pictórica ao desmembrar parte por parte a realidade, querendo absorvê-la, e captar-lhe, por magia e celebração, os poderes e segredos.