Jacob Abraham Camille Pissarro

 (*Ilhas Virgens, 10/7/1830 - † Paris, 13/11/1903)

 

 

 

Ver as telas de Camille Pissarro ao vivo e em cores

(exposição temporária no Thyssen Bornemizsa, Madrid, de 4/6/13 a 15/9/13) não altera a impressão de tê-las visto na segunda mão de um catálogo ou na internet.

Rue Saint Lazare

Discípulo confesso do xará Camille Corot,

Corot, A dança das ninfas

de quem teria herdado a nostalgia neoclássica do paraíso terrestre inscrito em paisagens campestres;

partilhando técnicas e projetos com Renoir, Monet, Cézanne ─ Pissarro foi um vanguardista epigonal, posto em sossego,

à sombra

Camille Pissarro, The siesta

de temas e motivos comuns à sua época,

Jean-François Millet, Descanso ao meio dia

sem, contudo, acrescentar-lhes uma pincelada pessoal.

Veja-se-lhe, por exemplo, o pontilhismo à Seurat

Geroges Seurat, Farm women at work

 e à Signac,

Paul Signac, Women at the well, 1892

em The gleaners

e em Haymakers at rest:


 

Sem um estilo que, próprio, marcante, o distinga, num simples olhar, dentre impressionistas e neoimpressionistas, enferma a obra de Pissarro a reiteração monocórdica de temas e motivos, que se reduzem a flagrantes urbanos e rurais, sem constituírem, contudo, uma oposição conflitante em sua visão da realidade e do mundo.

A revolução industrial não empana ou polui ou degrada o meio em que se implanta,

Landscape with factory

 preservando a sustentabilidade ambiental de sua utopia dicotômica.

Repetitivas paisagens citadinas, nervosas e cambiantes quando submetidas ao capricho heraclitiano da luz,

Boulevard Montmartre, winter morning

Montmartre, afternonn sun

convivem, tranquilamente, em sua obra, com a  calma e segurança estáticas de um campo em que se respira paz e serenidade. Lembra-me

La recolte de foins

verso de Bocage: “Nos campos, o vilão sem sustos passa...”, ─ imune às tentações bíblicas que, desprevenidas,

 o cercam

The Bathers

num paraíso terreal em que não se vislumbra o encantamento de nenhuma serpente. Maçãs só mesmo as colhidas a mancheias com o suor do rosto.

The apple picking

Seu campo, arcádico, pacificado, inocente ─  onde se funda nossa nostálgica utopia burguesa, sonhando com casinhas em ruas tranquilas (ah, esses condomínios horizontais de alto padrão!)

Road in Louveciennes

e, fogo de chão, com  o indefectível churrasco domingueiro ─

Woman burning wood

não tem, embora lembre no traço e motivos,

Peasants in the field

Harvest

a carga dramática e a unção religiosa de um Milliet.

(Ver, em Segundas Iluminuras, Jean-François Millet: 

http://www.pinceladas-fms.com.br/millet.htm )

Teria saído da visita a Camille Pissarro com a sensação do requentado na cozinha Lavoisier, não fosse ter comprado na bookshop do Thyssen-Bornemisza um livrinho:

Nele, vinte e oito desenhos que, realizados entre finais de 1889 e 1890 e enviados para a sobrinha Esther Isaacson, residente em Londres, só vieram a lume em 1972, ou seja, oitenta anos depois de sua realização.

Não fosse o livrinho descoberto, nele teria repousado eternamente o Pissarro

 

que, mesmo sentado a distância, nos píncaros idealizantes de sua obra, não deixou de indignar-se com as torpezas sociais de seu tempo. Ao sol do movimento anarquista (auréola na Torre Eiffel, a santificar os anseios radiantes e renascentes de Igualdade, Fraternidade e Liberdade), urgia (veja o Tempo esgotando-se na ampulheta) decepá-las com a foice da justiça. (À iconoclastia devastadora do Anarquismo faltavam, programaticamente,  martelo e bigorna para a forjar uma nova sociedade.)

À Daumier, Camille Pissarro via a burguesia exploradora e expropriadora, adoradora do Capital, esse bezerro de ouro,

O capital

como o alvo de sua diatribe.

Endinheirados e desalmados, os patrões submetiam a classe trabalhadora à escravidão de trabalhos forçados a um baixo salário, condenando-os ao inferno dantesco de uma pobreza perpétua

Trabalhos forçados

ou roubando-lhes a única riqueza ciosamente guardada: a honra.

O suicídio da abandonada

O farisaísmo filisteu da burguesia imperante chegava ao desplante de disfarçar-se na filantropia de devolver aos famintos o pão que lhes roubara.

Bocado de pão

Como resolver a injustiça social?

Incentivando a fecunda classe trabalhadora a exigir a devolução, à força, do que lhes fora roubado..

Lutando pela sobrevivência

(No darwiniano struggle for life, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão?)

Convenhamos que, sob as patriarcais barbas de Pissarro,

Autorretrato 

escondia-se a indignação panfletária e melodramática de um adolescente, que, aos cinquenta e nove anos, comentando esse desenho intitulado “A arte está em marasmo”,

descobriu (tardiamente?) mais uma torpeza naquela sociedade dominada pelo Capitalismo selvagem:

“Outro miserável que acreditou na glória e se vê trabalhando num armazém de exportações. Neste mundo, não há que sonhar, há que ser realista!”

Sejamos realistas.

 Pissarro concretizou seu sonho de encarar realisticamente a vida: armazenou e exportou, em suas telas, a utopia da burguesia reinante. Que, transformando a inutilidade da arte em matéria decorativa de seus palacetes,

 Pissarro, Vase of flowers

concedeu algum valor e glória às pinturas de Camille Pissarro.