Ser politicamente correto, II

 E viva Maquiavel!

(Nicolau Maquiavel, Santi di Tito)

Se Maquiavel fosse vivo, sob a inspiração dessa placa-mobiliário-urbano politicamente correta,

esse Príncipe do arrivismo empreendedor logo abriria uma empresa especializada em alugar crianças de colo, gestantes, idosos e deficientes físicos para uso em filas, vagas prioritárias de estacionamento, assentos reservados em coletivos e, não esqueçamos, semáforos...

Afinal, como disse o editor dessas Pinceladas, Flavio Botton (epigramaticamente captando a essência do caráter e pensamento maquiavélicos): --- “Os fins justificam os meios.”

 

 

 Handicap

O amigo, a amiga aí,

(Gótico norte-americano, 1930, Grant Wood)

já passados dos sessenta, sabem o real sentido de handicap, handicapped?

Se não, sorry, guys, aconselho pegar um bom dicionário Inglês-Inglês. Por exemplo, o que acabei de consultar e, por isso, o tenho em mãos no momento ─ The Advanced Learner’s Dictionary of Current English (second edition, London, Oxford University Press, 1963), em cuja página 451 se lê:

handicap (competition, race, in which there is a disvantage imposed on a competitor to make the chances of success more nearly equal for all…”)

(Corrida de cavalos diante da tribuna, Degas) (The lost joquey, Magritte)

 

Percebo que o leitor(a) não apresenta deficiência de compreensão. Além de que, experiência de passados anos, está acostumado(a) às perversões da lógica humana. Assim sendo, entendeu perfeitamente o que significa handicap:

─ Enquanto empecilho e obstáculo cerceadores da vantagem e da superioridade alheias, handicap não passa de lambuja concedida aos deficientes ou incapacitados.

(Rua Prager, Otto Dix) (Berlin Streetscene, George Grosz)

De repente, para purgar velha culpa, nossa Civilização se fez política e humanamente correta. Resultado?  Inventou o handicap como muleta ou bordão para legítima (?) defesa dos mais fracos contra os mais fortes. Em suma, piedosa lambuja.

(Between Rounds, Thomas Eakins)

Nesse struggle for life, nessa luta pela sobrevivência, só queremos, como piedosa lambuja, que nosso amigo Darwin, falecido aos setenta e três, não tenha sido, por treze cabalísticos anos, em momento nenhum, agraciado com todas as benesses concedidas aos handicapped.

Ave, Darwin! Os handicapped sobreviventes te saúdam.