Pomar às Avessas

Em pleno Neorrealismo contestatório da ditadura do Estado Novo português (1932-1974), o sobrenome herdado --- Pomar --- haveria de lembrar-lhe, a contragosto, o ideal hortifrutigranjeiro do portugalinho salazarista --- esse vergel à beira-mar plantado?

Tornando a pintura arma de combate,

Maria da Fonte, 1957

Júlio Pomar (* Lisboa, 1926) engajara-se na luta por ceifar o mal salazarista pela raiz:

O gadanheiro, 1945

Acabou, contudo, pintando lírica (e metonímicamente) a meia colher (trolha chamada) da boia fria de um pedreiro,

Almoço do Trolha, 1947

cuja beleza pictórica decididamente não fez dele, caro Vinícius, um operário em construção. Antes leio no quadro a apologia de abençoada pobreza familiar cuja recompensa, prometida por Nossa Senhora de Fátima, está no Céu --- não é assim que rezava a bênção cardeal-Cerejeira do credo salazarista?

A Promessa, José Malhoa, 1933.

Anos de ensaio sobre a cegueira, Pomar acabou vendo a própria (nítida, apesar do luto trevoso),

Cegos de Madrid, 1957-1959

ao perceber o malogro do engajamento de sua pintura: o forte decorativismo, a vívida explosão cromática, a linha elegante e sedutora do desenho, a idealização do povo e de sua atividade não destoavam, ao cabo tormentoso de seu pincel, da estetização folclórica da política pictórico-cultural do Estado Novo --- cuja propaganda e marketing mostravam a Pátria como mãe de úberes próvidos

Pausa Forçada, Alves Cardoso, 1913

ou simpática tataravozinha (se considerarmos que nascida em 1128).

A vendedora de laranjas, Maria de Lourdes de Melo e Castro, 1929

Em meio a cebolas ou laranjas nascidas do pródigo quintalório, vendia-se a felicidade da inocência, simplicidade e virtude aldeãs.

Mercado de Caldas da Rainha, Alberto Sousa, 1940

Fruto de uma teimosia saudosista que estacara no tempo,

Teimosia, Henrique Pinto, 1894

o neogarretismo de fins do século XIX, esse inocente útil, tornara-se matéria prima da neorromântica propaganda salazarista.

Não se depreende da pintura de Júlio Pomar a verdade realista de Cesário Verde, em cuja íngreme visão, o campo --- vazio despenhadeiro a pastorear o ser humano ---

Bucólica, Luciano Freire, 1896

não é passatempo com bucolismo, rouxinol, luar.

Que o confirme Portinari, ao ferir-nos a sensibilidade, pelos mesmos anos neorrealistas, com a agudeza, à João Cabral de Melo Neto, de uma faca só lâmina. Seus espantalhos

Família de retirantes, 1944, MASP

 figuram a velhíssima realidade nordestina da vida

Enterro na Rede, 1944, MASP

e da morte severinas:

Menino morto, 1944, MASP

Como veem, vidas secas, à Graciliano: cipreste genealógico de esqueléticos e esgalhados ramos.

(Não é que, fruto da psicologia dessa composição, surde, à João Cabral, um pomar às avessas  ... 

Decididamente, um pomar bem às avessas.)