Quando o hábito faz monges

Estava relendo Brasileira de Prazins, isso mesmo, do Camilo Castelo Branco, e não é que encontro um padre cujo hábito de conviver com os demônios próprios e alheios fez-me lembrar esse monge sem batina que foi o Bosch.

Relata Camilo a chegada de quatro missionários que, verdadeiras bestas do Apocalipse, “assentaram o vestíbulo do paraíso” numa aldeola portuguesa. A leitura dos parágrafos dedicados à biografia daquelas seráficas cavalgaduras faz-me pensar que a fuga da sagrada família num burro é anunciação dos zurros retóricos com que o verbo divino será mais tarde veiculado.

Destaco aquele reverendo que, na paleta de Camilo, me fez lembrar o Bosch. Chama-se Padre Silvestre da Azenha, “forte na topologia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos diabos”:

“Afirmava [o tal padre] que a legião deles se dividia em esquadras, capitaneados por Lúcifer, príncipe da Luxúria, por Asmodeu, Satanás, Belzebu e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vícios. Dava notícia de um caudilho de esquadra, chamado Behemoth, cujo empenho era bestializar os fiéis --- verdadeira superfluidade.” 

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Verdade que, ao contemplar a legião demoníaca do Bosch espalhada pelos trípticos, não sei reconhecer quem Lúcifer, ou Asmodeu ou Satanás ou Belzebu... Nem mesmo, ó Deus, o Behemoth... Prova de que estou bestializado?...

Ou será que inominável é a legião dos pecados que, íncubos e súcubos, se banham nas delícias dos wet dreams?