Nevropatias

Foi J.-K. Huysmans

quem me apresentou a Jean des Esseintes, descendente de uma família cuja linhagem aristocrática se manteve ao longo dos séculos graças à aberração de casamentos consanguíneos.

 

 

 

Odilon Redon, Rosto - germinação

A misantropia, vivida na tebaida de sua propriedade em Fontenay-aux-Roses,

Odilon Redon, O prisioneiro

era o protesto de sua repugnância à mediocridade de uma burguesia filisteia e farisaica capaz de transformar preciosidades em pérolas para porcos.

─ Um nevropata, fruto de doentia hereditariedade, assim diagnosticou Zola,

Paul Cézanne, Paul Alexis lendo um manuscrito a Zola

quando lhe disse que fora convidado por des Esseintes para visitar a pinacoteca que expunha nas paredes de sua tebaida.

─ A nevropatia de seus sentidos destrambelhados, continuou Zola, busca educar-se numa correspondência sinestésica de sabores musicais, odores pictóricos e outras loucuras dessas, típicas de uma humanidade decadente e monstruosa.

Odilon Redon, O distribuidor de coroas

Num terno de veludo imaculadamente branco, colete orlado a ouro e um ramilhete de violetas à guisa de gravata, assim me recebeu Jean des Esseintes. Conduziu-me a uma sala forrada de couro, por onde passeava um tartaruga com o casco folheado a ouro. Voz baixa, tom monocórdico, falou longamente de seu gosto literário,

Odilon Redon, Orfeu

cabeça perdida na admiração por Malharmé, Baudelaire, Poe; de seu desejo de evadir-se da contemporaneidade odiosa, nas asas de um Pégaso negro,

Odilon Redon, Pégaso negro

para lonjuras onde imperassem esplendores asiáticos e bizantinos; de suas leituras religiosas (fora educado num colégio jesuíta), preocupado que estava com o satanismo, que considerava filho bastardo do catolicismo, com a luxúria e êxtase místicos que ressumavam de certos textos e quadros religiosos. Foi aí que me convidou para ver duas obras de Gustave

Moreau (* Paris, 6/4/1826 – 18/4/1898), adquiridas recentemente.

 

Salomé dançando ante Herodes

A Aparição

Fascinado e perdido em sua contemplação, des Esseintes esquadrinhava toda a luxúria mística dos quadros de Moureau:

─ Fálico, o lótus em sua mão exige o sacrifício de qualquer castidade. Não lhe parece, com sua lubricidade de serpente querendo despertar os sentidos entorpecidos de Herodes, a imagem em carne e osso da Prostituta do Apocalipse? Quem não perderia a cabeça por ela? Muito diferente da Salomé que Rubens

transformou na sensaboria de uma matrona burguesa com mais pinta de serviçal do que Lilith venenosamente sedutora.

Exausta a religiosidade concupiscente, findos os orgasmos místicos, levou-me a uma peça contígua, onde, em molduras de pereira bruta debruada de ouro, viam-se quadros que me lembraram Goya. Basta um cochilo da razão para produzir monstros.

Odilon Redon, The crying spider

─ Conhece?

─ Não.

(Como poderia? O pintor

há de tornar-se conhecido graças a des Esseintes: Odilon Redon (de nome Bertrand-Jean Redon - * Bordeaux, 20/4/1840 - Paris, 6/7/1916).

Retratado no outro, o tenebroso inconsciente de meu anfitrião despertava e revia-se em Redon.

Uma Salomé, que mais parecia Madalena arrependida,

aparecia pendurada logo acima de uma cabeça servida numa bandeja:

Odilon Redon, Cabeça de mártir

Ab ovo,

Odilon Redon, O ovo

logo vi

Odilon Redon, Guardião do espírito da água

 que a imaginação doentia de Esseintes

Odilon Redon, Eye

 refletia-se na disposição dos quadros de Redon, que, confessou-me, despertavam-lhe na memória recordações de noites em que, abrasado de febre tifoide, se via enredado numa teia

Odilon Redon, A aranha

de pesadelos ─ terríveis visões de sua infância.

Os candeeiros ardiam em crepitações fantasmagóricas. Ofereceu-me licor. Perguntou se eu não percebia que o gosto de cada licor correspondia ao som de um instrumento:

─ O curaçau seco, por exemplo, soa a clarineta... A menta e o anisete trazem o som da flauta, doce... No kirsch ouve-se furioso clarim...

Gustave Moureau, Hesíodo e a musa, 1891

Enquanto meus ouvidos surdos bebiam, des Esseintes, olhos fechados, saboreava os sons.

Às três da manhã despedi-me. Disse-me que estava sem sono.

 Deixei-o mergulhado na leitura do poema De laude castitatis, escrito por Avitus, bispo metropolitano de Viena. Preparava-se para sonhar com a tentação súcuba de outra Salomé de Moureau.

Salomé, 1876