Paula Figueiroa Rego

1. De Vênus, de coturnos

Nascida em Lisboa (não me peçam a data, sou cavalheiro), Paula Rego tem vivido e produzido em Londres. Quando contemplo, por exemplo, sua série de Brancas de Neve ou os quadros dedicados às relações familiares parece que estou folheando um nelsonrodriguesiano álbum de família: obstetrícia de um inconsciente cujas pulsões sexuais haveriam de fazer a delícia do divã freudiano.

Fálico o pincel de Paula Rego, a pintar o universo feminino com traços viris. A revelar que as mulheres são o sexo forte. Dominadoras num jogo sexual cujas regras desrespeitam a interdição pecaminosa do incesto ou do gênero. Totens carnais de velhos tabus:

--- Ai que venham bem polidinhos, se me vieres, ó Pai, de borzeguins ao leito.

rego_filha_policial.jpg (50653 bytes) (Paula Rego - The Policeman's Daughter, 1987, óleo sobre tela, 213 x 152 cm)

Ou será

uma Cinderela dark com seu sapatinho da meia-noite?

      

2.  Papai-e-mamãe?

Que paterfamilias (cansado Ulisses de cotidianas odisseias) não sucumbiria sufocado de prazer por tão calorosa recepção.

rego_familia.jpg (63845 bytes) (Paula Rego - The Family, 1988, acrílico sobre tela 213 x 213 cm)

Às mãos da mãe e de uma das filhas, o destino do Pai (testemunhado pelo fervor voyeur da caçula) se prefigura na cegonha cujo fálico bico há de trespassar o raposão?

A morte do dragão, no oratório, descortina a necessidade de destronar esse demoníaco símbolo do mal, desapossá-lo dos interditos prazeres de que se proclama guardião no lar-diabético-lar? 

 

3.  Walt Disney X-rated

Suas Brancas de Neve não são puras nem frias. Tampouco loiras. 

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(Paula Rego - Snow White Playing with her Father's Trophies, 1995, Pastel sobre papel e alumínio, 170 x 150 cm)

Ao castrar o Pai (eufêmico decapitar?), essa Diana-predadora assume-lhe a pose senhorial no trono do sofá. (Estou até ouvindo-lhe o arroto satisfeito.) Invertidas as posições, traz o pai, paródico Bambi de Walt Disney, aninhado nas coxas despudoradamente entreabertas. A mãe...

(Uma bruxa, vejam-lhe a cara... Espelho, espelho meu, quem mais bonita, minha filha ou eu?... Sempre quis roubar-lhe a presença e o amor do Pai. Mais que merecido o castigo ali, a um canto, ajoelhada, é claro, sobre o milho das galinhas... Que morra seca e tesa essa invejosa do troféu de sua conquista!)

Cachopas incestuosas, essas Dianas-caçadoras trazem entre as pernas o troféu de sua caça e conquista --- a cabeça do Pai.

Cuja galhada é sinal de que, não obstante o amor filial, hão de enfeitar-lhe a testa. Afinal (happy end para a sacrossanta Moral e os bons costumes), hão de namorar e casar com o Outro.

 

4.  Maçã do amor

Essa história é velha, não conhece idade.

A maçã do amor é venenosa. Fruto proibido mesmo para uma Branca de Neve madura. (Ou será já passada?) 

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(Paula Rego - Swallows the Poisoned Apple, 1995, Pastel sobre papale e alumínio), 178 x 150 cm)

Que nos diga a serpente que, insinuante, sobe-lhe por entre as pernas. Inútil contraí-las, apertá-las e tentar impedir a tentação, puxando o recato da saia.

Que entender? Que, à medida que envelhece e passa, o amor é um estupro físico e psicológico para a mulher?

 

5.  Be aware of Dog

rego_dogwoman.jpg (53730 bytes) (Paula Rego - Dog Woman, 1994, Pastel sobre papel, 120 x 160 cm)

Cão de guarda do lar?

Bicho de estimação?

Fidelidade canina?

            Ou simplesmente uma cadela? Rosnando a raiva de sua condição.

 

6.      Viúvas de Degas?

Leves cisnes degas_cena.jpg (59962 bytes),

as bailarinas de Degas, --- cuja elegante elasticidade é ensaiada até por um regador. degas_bailarinas_praticando.jpg (56650 bytes) 

(Ou elas é que se modelam na natural performance do regador?)

Já as dancing ostriches de Paula Rego, sucumbidas e prostradas no pesadume,

rego_ostriches01.jpg (70573 bytes) rego_ostriches02.jpg (70217 bytes) rego_ostriches03.jpg (62830 bytes) rego_ostriches04.jpg (59571 bytes)

não lhes parece o balé de luto, carpindo a morte de Degas?