Richard Estes:

 

                                                                                                 

(*Kewanee, Illinois, 14/5/1932) 

             Ilusão do Real, Realismo da Ilusão

 

1.    Achado

 

No passado julho/2013, no Thyssen-Bornemisza, de Madrid,

                                                                                                                                                                            
                                                                 

após ter percorrido a exposição temporária de Camille

Autorretrato

Camille Pissarro, detalhe de Charing Cross Bridge, London, 1890

(que ficou em cartaz de 4/6 a 15/9/2013),

tendo saído da paz arcádica de suas paisagens rurais

e da catarata poético-impressionista de suas visões urbanas,

bati os olhos nessa tela aí embaixo.


 Pensei tratar-se simplesmente de um fotógrafo competentíssimo. O hiper-realismo da imagem, sua nitidez, o embelezamento mimético da realidade, debitei-os à competência vicária de um software aristotélico ─ o fotoshop, meu caro, aquele programa para criar e editar imagens, aprimorando-as.

Tanto que nem procurei a letra miúda do quadro com os créditos da imagem acima.

                                                                                                      Ao atentar, contudo, para outro quadro e crédito 

                                  

                                   Richard Estes, Telephone Booths, 1967, oil on canvas, 122X 175 

parei e pasmei.

Richard Estes não é fotógrafo como sugere a enganosa aparência. É pintor

e mais hiper-realista que Norman Rockwell, cujo April fool me veio logo à lembrança,

fazendo-me perceber que o detalhismo pictórico de Richard Estes, superior ao de Rockwell, não se tratava de primeiro de Abril. Sua paleta e pincel têm a retina teleobjetiva de uma máquina fotográfica.

Richard Estes, Paris street scene, 1972

 Entendi também o complexo demiúrgico que, edipiano, enferma todo criador em sua busca incansável do fiat lux.

 

2.    Fiat lux

 

Lição aprendida no Impressionismo (ave, Pissarro, Monet, Renoir & Cia), Richard Estes desconfia da realidade. Falaciosa porque sempre cambiante ao capricho da luz. Por isso, procura coagular-lhe o curso heraclitiano, servindo-se da fotografia. Ora,

quem não sabe?,

fotografia ─ do grego φως [fós] (“luz”), e γραφις [grafis] (“estilo”, “pincel”) ou γραφη [grafê] ─ significa “desenhar”, “escrever”, “gravar”, “pintar” com luz e contraste, procurando captar, no enganoso claro-escuro do Real, a aparência e essência dos seres.

Fotorrealismo chama-se a técnica de Richard Estes, cuja reprodução hiper-realista da paisagem urbana (seu tema preferido) se faz a partir de fotos

com as quais esse clássico redivivo nos séculos XX e XXI dialoga e emula.

 Sem dúvida, com a intenção de superá-las, confiante no artesanato de seu engenho pictórico. Não o atormenta a dúvida de António Ferreira (1528-1569), teorizador do Classicismo português e cover do latino Horácio Flaco (65 a.C - 8ª.C), ─ se obra mais arte ou engenho na (re)criação.

Não bastasse, impregnado, como todo clássico, pelas fantasias mitológicas, Richard Estes transforma a realidade num Narciso em busca de sua imagem e reflexo.



 

Richard Estes, Kentucky fried chicken, 2007

Onde a imagem e reflexo procurados? Na realidade fenomênica que serviu de modelo? Na foto que a reproduziu? Na pintura que, engolfada num mise-en-abîme, imita a foto que por sua vez imitara o modelo fenomênico?

Um software de fotoshop no clic de seu olhar, na arte do pincel, de cuja câmara escura surge uma imagem que a tabula rasa de nossos sentidos jura tratar-se da realidade, sem tirar nem pôr.

Richard Estes, Ansonia, (Connecticut), 1977

Obcecada por reflexos e imagens especulares, a pintura de Richard Estes, com sua realidade de terceira mão, mergulha-nos num espelho

 

Richard Estes, Broad street, NYC, 2003

e traz à superfície a velha indagação barroca: onde reside de fato o Real,

 no Ser ou no Outro ─ seu reflexo?

Enfim, hamletiana questão nos põe Richard Estes em face da natureza esfíngica da realidade: és o Ser ou o Não-ser?

3.    Mergulho no espelho

 

Que tal um pulo à cidade de Nova Iorque?

 

Richard Estes, New York, 1999

Aproveite que é uma cidade a sofrer de insônia. Se estiver em Staten Island, pegue carona nesse ferry

 

Richard Estes, Staten Island Ferry arriving Manhattan, 2012

e, cruzado o East River em mais ou menos trinta minutos,

Richard Estes, Staten Island Ferry docking Manhattan, 2008

tome um ônibus

Richard Estes, 42nd Street cross town bus

 

ou metrô

Richard Estes, The L train, 2009

e compare in loco, a verdadeira (?) paisagem urbana de New York City

 

 

 

com o fotorrealismo das reproduções pictóricas de Richard Estes  no Whitney Museum (945 Madison Avenue at 75th Street) ou na Marlborough Gallery (40 West at 57th Street)?

                                                                                                         Vamos lá, caminhe pela Broadway com a 68,

 

 Richard Estes, Broadway and 68th Street, 2012

 

passe pela 59 na Oitava Avenida, sem temer o sonambulismo de suas reformas e obras,

 

 Richard Estes, 59th Street at 8th Ave, 2012

desça a escada rolante do metrô Columbus Circle.

 

Richard Estes, Columbus Circle Subway Station, 2012

 

Em Times Square, sob decadente sol outonal, curta a longa fila, paciente,

 

                                                                                                                                                Richard Estes, Tkts Line, 2005

 

na esperança de um ingresso baratinho para o musical, não importa qual seja,

Richard Estes, Times Square, 2004

 

 o importante é dizer que você viu, esteve lá, gloriosa em seu modelito:

─ Um luxo, amiga!

 

 Roy Lichtenstein, Girl in mirror, 1964

 

E, olhos ainda abismados no espelho (de maquiagem?), prossiga:

─ Ah, e os outlets, então! Tipo assim... Um paraíso da tentação! Se não fosse um paraíso da tentação, como esta cidade seria uma big maçã para a fome de nosso consumo, não é mesmo? Não deixe, amiga, de ir a Woodbury...

 

Fica em Nova Iorque... Na cidade, não... No estado de Nova Iorque, mas é tipo assim... cinquenta minutinhos de Manhattan... Mais perto? Na Century 21, 

 

uma loja de departamentos ali perto onde aquelas torres caíram... Eles chamam o lugar de graund zirou...

 

Richard Estes, Tour bus of the World Trade Center, 2005

 

4.    Espelho, espelho meu

 

Pronto, satisfeitas as comprinhas (ora, quem resiste a pechinchas, ainda mais de grifes!), diga-me lá, espelho, espelho meu, quem mais real do que eu?

Qual, por fim, mais vívida?

                A experiência vivida in loco

            ou

Richard Estes, Looking east from 8thAvenue, 2002

a percorrida pelo olhar, ao longo das telas de Richard Estes?

 A ilusão do real ou o realismo da ilusão?