Autorretrato

Sempre vejo um autorretrato como um rosto em busca da verdadeira imagem de sua identidade e caráter.

Onde está escondido o Eu que se procura, a rever-se? É na plana e rasa superfície da tela que busca a profundidade do seu Ser? Como Van Gogh, desvelando-se (sua alma, sua aura) na severidade ascética de um monge?

Ou como Albrecht Durer, a procurar de viés a mirada que, caindo-lhe como uma luva, Narciso lhe devolve refletida na tela?

Se ut pictura poesis, a poesia, assim como a pintura, é também capaz de autorretratos:

 

Bico de Pena

Sou feliz ou infeliz?

Não o sei. Tampouco minto.

O texto é quem sabe e diz

quem sou, aquilo que sinto.

 

É verbo que me conjuga

em pessoa que só conheço

soletrando, ruga a ruga,

minha alma, e seu avesso.

 

Apesar de carne e osso,

não sou eu fora do texto

--- ou sou apenas esboço

 

de quem me sei soto-posto:

tosca obra dum bissexto,

autorretrato sem rosto.