Sóror Mariana Alcoforado

(*Beja, 26/4/1640 – †Beja, 28/7/1723)

Sóror Mariana, imaginada por Matisse

Pensava-se que a clausura conventual 

Clausura, Valter Vinagre

fosse espinhoso cinto de castidade com chave perdida. Portanto,

mais que desbotada feiura, cidadela inexpugnável em defesa da guarda e honra da pureza virginal. Ledo engano. É o que se conta de Sóror Mariana Alcoforado,

paixão desfraldada ─

literalmente, sursum corda, que em casto vernáculo, para quem não saiba, se traduz por “corações ao alto”.

Sóror Mariana, Domingos Ribeiro

Encerrada no Convento de Nossa Senhora da Conceição,

protagonizou, dizem, drama de amor não correspondido, ao devotar o coração, que deveria estar consagrado a Cristo,

Do amor, Walter Vinagre

a um garboso cavaleiro francês, de nome Marquês de Chamilly.

 

Chamilly, Victorcouto

O distinto, sob as ordens de Frederico de Schomberg,

viera lutar nas hostes lusitanas durante a Guerra da Restauração portuguesa (1640-1668). Nada obstando a que, por desfastio, se empenhasse noutras conquistas.

E como ficamos a saber dessa picante história, desse nelsonrodriguesiano enredo de meu destino é pecar?

Mariana Alcoforado, Milo Manara

Pelas cartas ardentes que ela teria escrito, assoalhando sua paixão.

Diz-que-diz de bisbilhoteira vizinhança acadêmica?

Nos primeiros meses de 1669, aparecia em Paris um volume sob o título Lettres portugaises traduites en françois.

No prefácio, o editor assinalava terem sido escritas para um gentil-homem francês por uma mulher apaixonada, calando, contudo, os nomes da autora, do tradutor e mesmo do destinatário. Para bolinar as zonas erógenas do reprimido inconsciente, uma edição saída em Colônia nesse mesmo 1669 vestiu a mulher apaixonada de freira.

Capa de Cartas de Amor ao cavaleiro de Chamilly

Se o hábito faz a monja e as letras eram portuguesas, ora pronto, cartesiano raciocínio, ali estava ─ une religieuse portuguaise. De 1669 a 1800,

cerca de noventa edições, recheadas de outras ardentes inconfidências amorosas, circularam em francês, inglês, alemão, italiano, sem ainda esclarecer a autoria das cartas dessa agora religieuse portugaise.

Em 1810 (ou 1819), um lusófilo inconfidente, chamado Boissenade, divulgou no Journal de L’Empire uma nota manuscrita ─ que, diga-se, jamais alguém viu. Achada num exemplar seu daquela edição ali em cima de Claude Barbin (1699), rezava a tal nota:

 “A religiosa que escreveu estas cartas chamava-se Mariana Alcoforado, religiosa de Beja, entre a Estremadura e a Andaluzia. O cavalheiro a quem estas cartas foram escritas era o Conde de Chamilly, chamado então conde de Saint-Léger.”

Que não se perca o destinatário pelo título, conde Saint Léger.

Saint, ora quem não conhece ou saboreia santidades do pau oco, seja a própria ou alheia.

léger, ensina o gálico dicionário, corre em moeda mundana por “ligeiro”, “superficial”, “leviano”.

Santa leviandade esse batismo do Sr. Boissenade?

Julgue, comadre, quem nunca atirou a primeira pedra, aquela da bíblica lição. De que Jesus escapou safo. Imagine, santinha, não estivesse ali Pedro a puxá-lo pelo braço, pondo-o a salvo do calhau.

Investigações históricas de Luciano Cordeiro

(Soror Mariana, a freira portuguesa, Lisboa, 1888), 

demonstravam que, à época em que as cartas foram escritas, existira de fato uma freira que dava pelo nome de Mariana Alcoforado. Surgia a “tese alcoforadista”, defensora de que a freirinha de Beja, uma bas-bleu avant la lettre, as compusera,

 afrontando as rasuras e tonsuras da censura de então e de hoje. (Que o digam as três Marias com suas Novas Cartas Portuguesas).

Sóror Mariana, Alfredo Aquino

Para aguar o ufanismo lusitano

─ (“Como é diferente o amor em Portugal”, proclamaria o Cardeal Gonzaga, esbrugando uma coxa de faisão frugal em A Ceia dos Cardeais, do Sr. Júlio Dantas) ─,

um desmancha-prazeres americano, F.C. Green, com base em testemunhos do século XVII, atribuía a autoria das cartas a um tal senhor Guilleraques. A partir daí dividem-se as opiniões a favor ou contra a “tese alcoforadista”.

Não comungo a ideia de que a freirinha as escreveu. E não estou sozinho. Segundo consta, comadre, comigo estão Camilo Castelo Branco,

Camilo Castelo Branco, Júlio Pomar

Alexandre Herculano

Rousseau

Rousseau, Maurice Quentin de La Tour

e o posudo Barbey d’Aurevilly

Barbey d’Aurevilly, Émile Lévy

descrendo sejam de autoria dela a incandescência daquelas letras. Imaginem uma mulher, destinada para o amanho do lar e, mais, uma devotada esposa no harém de Cristo, desarranjar a cabeça caligrafando literatices amorosas pouco virtuosas!

Minhas razões (ou sem-razões) para a descrença são de outro teor, que não soletro por essa cartilha de marialvas.

Estão alinhavadas num livrinho acerca da literatura barroca, cuja suculenta carnadura, meu caro Brás Cubas, é repasto só de traças bibliófilas.

Retomo-as aqui com novo tempero. Quem sabe não lhes abro apetite de gourmand, e não de traças.

Não obstante escritas por um eu que veste o hábito de freira e se autodenomina “infeliz Mariana” (Primeira Carta), “tua pobre Mariana” (Segunda Carta),

Sóror Mariana, José Ruy

bacoreja-me ─ como diria Camilo Castelo Branco ─ seja homem o autor das ditas cinco missivas.  

Nesse ghost writer, o sêmen da alteridade heteronímica já explorada nas cantigas de amigo: escritas por um homem, voz disfarçada no falsete e choramingas femininos.

Sóror Mariana, José Ruy

Denuncia-o o enredo machista do drama passional, já encontradiço nas cantigas de amigo. Bem sob nossas barbas, a condição 

de mulher seduzida e abandonada

Sóror Mariana, José Ruy

pelo “amigo”:

─ Sofro por ter de deixar-te, amada Mariana, mas, soldado, atendo a meu Rei e cumpro meu dever para com a Pátria, defendendo-a, com o risco da vida, no campo de batalha...

 ─ esfarrapada desculpa essa de ter de ir para o “fossado”, serviço militar no linguajar medieval (Quarta e Quinta Cartas), deixando-a na fossa. E quem for perspicaz há de notar-lhe um ar de triunfo e glória. Afinal sua espada conquistadora ostentava mais uma marca (Quarta Carta).

Diante de um amante que, rompendo a mesura das Leys d’Amor, não está “empenhado em servir”, mas apenas em servir-se dela (Terceira, Quarta e Quinta Cartas), só resta à desditosa, ali à mão, o solitário amor do Amor, ainda de raiz medieval, a nutrir-se da distância, da separação, da ausência, satisfazendo-se masoquistamente (Quinta Carta). Quinhentista, e encadernado à Petrarca, é esse gozo de amar sem ser amada. (Terceira Carta)

Sóror Mariana, Zé Nova, 2011

Com a cor e sabor do proibido, o autor explora um

substrato tópico (cristalização de temas e motivos) muito caro à psique e poesia portuguesas.

Creio seja francês o dito autor. Se Guilleraques, não sei; não sou cigana com bola de cristal fingindo ler mistérios que só Deus saberá. Tinha, porém, o anônimo escriba correspondência com as Musas, a ponto de fingir a naturalidade do currente calamo, ao correr da pena, traduzido o eclesiástico idioma. No conhecimento de cartas trocadas entre soldados e moçoilas enganadas colheu a seleção dos motivos das queixas. Já o artifício de atribuí-las a uma freirinha seduzida e abandonada, ora, não se diga que não havia marketing na época. Em suma, um artesão da bricolage ─ passe a garrida galiparla, em homenagem ao autor.

Erra Tirso de Molina, meus caros, ao inventar que D. Juan, esse insaciável, espada desembainhada a despedaçar corações,

D. Juan, Max Slevogt

 se forjara em plagas espanholas. Versados em artes amatórias colhidas no Kama Sutra, amorudos a cantar de galo no galinheiro aquém Pirineus,

só mesmo os franceses. Afinal, não foram eles inventores, na Provença, dessas cantadas de amor, emprenhando as cabeças femininas com a ideia de que o verdadeiro amor... Ah, esse, minha Dona e Senhor, só à margem do casamento, na sombra capitosa do adultério. Ponham, pois, os maridos suas barbas de molho,

Cantada trovadoresca, trad. livre, (?)

atendam eles pelos nomes de Manuel, Joaquim ou Jesus.

Diz a Nova História, para seu desengano, meu caro Aristóteles, que não há verdade histórica. Só verossimilhança com ares de verdade. Portanto, ficção também. Sendo assim, aí fica minha verossimilhança da verdade.

Não fique essa lacrimejante história sem final feliz, nem conveniente moralidade para usos, costumes e ilustração dos séculos vindouros. Ela viveu consoante a retórica dos cantares, fingindo morrer de amores (Primeira e Terceira Cartas).

Turíbulo laudatório, diz-se que a freirinha Mariana Alcoforado,

Nun eating apples, Botero

saciada em verdes anos a fome da pecaminosa maçã, morreu aos oitenta e três anos. Abadessa e gorda. A clausura conventual digeriu-a bem. Envolta, ora, pois, pronto, em olorosos fumos de santidade.

Suas preces não foram em vão. No Convento de Nossa Senhora da Conceição,

Sóror Mariana, José Ruy

esfolou fervorosamente os joelhos, pedindo à Virgem que concebeu sem pecado,

Nossa senhora da Conceição, Peter Paul Rubens

lhe concedesse a graça de pecar sem conceber.