Surreal:

ainda em busca de sentidos

 

Cartesiano, compenso minha natureza (de formação?) sendo macaco de auditório do Surrealismo. Maneira de desestruturar, numa surriada surrealista, o “Penso, logo existo.” ─ por “Penso, logo sou enfermeiro.”

 Em Dali,

 cuja masturbação mental quis fecundar nova realidade,

 

O grande masturbador, Salvador Dali

http://www.pinceladas-fms.com.br/dali.htm

e Magritte,

a denunciar a arbitrariedade dos signos desse nosso sexto sentido que é a linguagem,

http://www.pinceladas-fms.com.br/magritte1.htm

http://www.pinceladas-fms.com.br/magritte2.htm

e 

De Chirico,

Autorretrato, De Chirico

http://www.pinceladas-fms.com.br/chirico.htm

em busca do enigma metafísico escondido na aparência do visível e material,

enfim, neles procuro, como herdeiro de Rimbaud ─ bêbeda viagem  dos sentidos destrambelhados ─, uma nova linguagem que desvele e traduza o que se inscreve na tábula rasa de minha retina acostumada a ser espelho refletor de enganosa realidade.

 

O falso espelho, Magritte

Ora, quem não sabe o quanto a estética surrealista deve à concepção de imagem poética cunhada por Pierre Reverdy?

Pierre Riverdy, Modigliani

Segundo ele, a imagem poética deve nascer

não da comparação, mas da aproximação entre duas realidades afastadas. E quanto mais distantes forem as realidades aproximadas, mais impressionante será a imagem poética ─ Leda fecundada por metamorfoses de Júpiteres femeeiros:

Leda atômica, Salvador Dali

Donde a linguagem surrealista, violadora do previsível, usar e abusar de descontextualizações,

esvaziando-se um significante de seu significado para atingir novas e inusitadas significações,

Time transfixed, René Magritte

abolidas aquelas seguras e remansosas fronteiras de espaço e tempo em que nos entrincheiramos, cheirando a naftalina.

Sonhava a estética surrealista, Leda fecundada por Júpiter, com o nascimento de um novo homem,

Crianças geopolíticas assistindo ao nascimento de um novo homem, Salvador Dali

liberto da camisa de força imposta pela pretensa racionalidade cartesiana ─ aquela que nos ensinou que 2 e 2 são quatro.

(Não é razoável ver 2 e 2 como igual a 22?)

O que mais me impressiona nos pintores surrealistas é a prova dos nove da arte e do engenho pictóricos:

o desenho, cujo figurativismo hiper-realista

Desnudo tridimensional, Vito Campanella

nos leva a reconhecer a imagem do real a que nossos olhos se acostumaram. O surreal está em decompor nossa retina de voyeur,

Partis sans laisser d’adresse, Vito Campanella

levando-a à sedutora aventura de uma viagem sem retorno por paragens desconhecidas.

Last, but not least nessa pinacoteca de meu gosto surrealista,

Paul Delvaux,

cuja arte, penserosa e inspirada nos modelos da Antiguidade greco-latina,

Woman  in the mirror, Paul Delvaux

deixa nosso olhar-espelho à soleira da caverna platônica de nosso inconsciente ─ sombras junguianas em busca da luz da verdadeira realidade.

Quem ainda quiser dar-me o prazer da companhia,

Narrator, Paul Delvaux

aguarde Delvaux

como matéria da próxima

Pinceladas sobre a pintura alheia.