Tamara de Lempicka

(*1898, Varsóvia - † Cuernavaca, México, 18/3/1980)

 

1.

Se eu fosse o José Dias, agregado do Bentinho, nosso Otelo caboclo encadernado em D. Casmurro, diria que a polaca Tamara de Lempicka, belíssima e libérrima, foi um pitéu. Veio ao mundo para triunfar e experimentar de tudo. Dona de um simples Renault amarelo berrante, via-se, contudo, retratada como fogosa amazona

Autorretrato, 1929

a cavalgar os cavalos-força de um Bugatti verde, máquina mais condizente com seus sonhos esperançosos de elegância e sua ambição de subir na vida. Conseguiu. Tanto que foi reconhecida como a rainha da art déco.

 
 

2.

Art déco, minha senhora, é a abreviatura de arts décoratifs. Na pintura, foi um estilo elegante, funcional, ultramoderno de 1925 a 1939, meramente decorativo, sem o delirante rebuscamento maneirista da art nouveau,

cujo papa foi Alphonse Mucha:

(*24/6/1860, Ivancice, Rep. Checa - † 19/7/1839, Praga).

Para adquirir ares importantes, a art déco adaptou, atenuando, princípios do cubismo, domesticando cubos e cilindros e cones

para a aceitação do gosto burguês.

.

Nu junto a prédios, Tamara de Lempicka, 1930

André Lhote, mestre de Tamara de Lempicka, foi o responsável por esse pós-cubismo, sintético, atenuado, sedutoramente disfarçado nas carnações voluptuosas ou na paisagem como pano de fundo,

Bacchante, André Lhote, 1910

técnica de que se apropriou Tamara de Lempicka com muita competência.

Nu deitado, 1922, Tamara de Lempicka

Nesse pós-cubismo, adocicado por traços neoclássicos, não se via, como registrou Baudelaire judiciosamente, “um umbigo que migrou para a caixa torácica”, nem “um peito despontando do sovaco”. Os nus deveriam ter as cores tentadoras do pecado. Bolinar a libido dos burgueses endinheirados, satisfazendo seus devaneios eróticos.

Adão e Eva, Tamara de Lempicka, 1931

3.

Há um toque do pincel sátiro de Jean-Auguste Dominique Ingres (*Montauban, 29/8/1780 -Paris, 11/1/1867)

O banho turco, Ingres, 1862

nas telas de Lempicka.

Mulheres banhando-se, 1929

Nas vestes de grande pintor neoclássico, erótico malgré lui, Ingres procurava negar a sensualidade que, tentadoramente, o atormentava,

A grande odalisca, Ingres

A banhista, Ingres

procurando libertar das garras e do fogo da lascívia sua alma, que, apesar da incriminadora papada, ele cria inocentemente angelical.

Rogerio libertando Angélica, Ingres

Quanto a Tamara de Lempicka, para quem a vida era um banquete de cama e mesa,

A concha, 1941

 não houve grilhões que lhe acorrentassem a libido exaltada.

  

Andrômeda, 1929

Veja-se a papada das mulheres que retrata (e em cuja sensualidade se revê e se reconhece).

As duas amigas, 1923

A camisola cor-de-rosa, 1927

Senhora de amarelo, 1929

Em pleno verão, 1928

4.

Que história é essa de papada?

Repasso a informação à luz da psicofisiologia, esse ramo da ciência que, graças a Georges Cabanis

na obra Rapports du physique e du moral de l’homme (1796-1802),  procurou estabelecer as relações condicionantes entre o físico e o comportamento moral do ser humano.

Reza a psicofisiologia que a papada caracteriza as mulheres cuja hipertrofia da tiroide as predispõe para uma vida sexual hiperativa.

Tamara de Lempicka casou-se duas vezes. A primeira com Tadeusz Lempicki, em cujo retrato

deixou incompleta a mão esquerda, aquela da aliança eterna, pegando o chapéu para cair fora  de sua vida.

Retrato de um homem (incompleto), 1928

O segundo casamento, com o Barão Kuffner, dono de vastas propriedades no Império Austro-Húngaro.

Retrato de um Homem, Barão Kuffner, 1928

A libido de Lempicka, insaciável, era bigúmea. Experimentou o duplo corte com amantes de ambos os sexos.

A bela Rafaela, 1927

A bela Rafaela foi uma das que, catada na rua, também lhe serviu como modelo, ao longo de um ano.

 (Freud,

que, segundo dizem, tudo explica,

pontificaria que a tendência homossexual de Lempicka resultava de seu complexo de castração.)

Posando de Madalena arrependida, a partir de 1931, com o manto da humildade religiosa a esconder ostensivamente a toilette da última moda, a baronesa de Lempicka Kuffner baixou os olhos chorosos

Madre Superiora, 1935

para o mundo dos pobres mortais,

Os refugiados, 1931

 à procura de castos

The polish girl, 1932

 e novos temas para sua obra:

Beggar with mandolin, 1935

Querendo dançar conforme a música da moda, incursionou também por um surrealismo canhestro:

Mão surrealista, 1947

Já não estava em sua mão a chave para abrir novas portas no mundo das Artes.

Chave e mão,1946

Amante da vida, tampouco lhe cabia na mão o suicídio demodée, ainda mais, coisa pobre!, com uma garrucha enferrujada.

Deixou que a Vida, essa Morte adiada, viesse ceifá-la aos 82 anos.
 

5.

A filha Kizette, única, fruto do primeiro casamento, não escapou de ser precursoramente retratada, à Balthus,

Thérèse, Baltus, 1938

Kizette na varanda, 1927 

Katia lisant, Balthus, 1936-39

Kizette in [sic] pink dress, 1926

pela mãe,

em poses de ninfeta, inequívoco sex appeal

 à pedofilia.

Não obstante a conflituosa relação com Lempicka, cuja natureza predadora e arrivista não aceitava, Kizette desempenhou o papel de boa filha, espalhando as cinzas da mãe sobre a cratera do vulcão Popocatépetl.

Natural esse último desejo de quem viveu sempre em combustão.