Bestiário

Acto un: tercio de varas

A linha 2 do metrô de Madrid (Cuatro Caminos a La Elipa),

basta seguir o filete de sangue, leva-nos à praça de touros de Las Ventas del Espíritu Santo (amém!),

passando pela estação Goya,   


 em cujas paredes se estampam, além de A pradaria de San Isidro(1788),  

 todas as reproduções das gravuras de Caprichos

 e Tauromaquia ─ mais esse pesadelo da Razão adormecida.

 De Tauromaquia, escolho uma, para mim catártica,

Goya, Caida de um picador de su caballo debajo del toro

 pois tentar contemplá-las todas é  perder o comboio cuja pressa pontual nos ameaça chegar em cinco ou seis minutos, o que nos atrasaria para a

                                                                                                            abertura triunfal

 

dessa bestialidade chamada tourada. Cujo sanguinolento espetáculo Toulouse Lautrec resumiu nas caveiras do homem e do animal, no estoque e na poça de sangue que lembra a muleta (entenda-se, a manta vermelha, que, menor e mais leve que a capa, atrai e prepara o touro para a morte no ato final da luta).

Toulouse Lautrec, Cartaz

 

Acto dos: tercio de banderillas

Conto de terror à Grimm, espelho expressionista da morbidez desfigurada e tumultuária de nosso inconsciente,

Francis Bacon, Tauromaquia

─ esse confronto do Belo, na elegância feminil e carnavalesca do traje de luces,

com a Fera bestial e desalmada, a desrespeitar (vejam lá que absurdo!)

a superioridade racional de seres ditos humanos, pondo-a por terra.

Procuro entender esse amor, visceral em Picasso e Hemingway, pelas touradas.

Em Picasso vejo apenas, nas figuras contorcionadas e confundidas na dor,

 

Picasso, Cena de tauromaquia 2

Picasso, O toureiro

a reedição da brutalidade criticada em Guernica:

Li Hemingway (The dangerous summer e Fiesta) à procura de resposta que não achei.

Não me convence a teoria de que as touradas encenam a luta de nossa racionalidade humana contra a fúria animalesca de nossos instintos.

Picasso, Tauromaquia

Teseus redivivos, cumpre matarmos o minotauro que habita o labirinto de nosso inconsciente?

 

Blasco Mentor, A luta

E sairmos dele na corda bamba do fio de Ariadne ─ essa imagem de nossa racionalidade?

 Estamos (valha-nos, Deus!) pondo à prova nossa coragem num duelo, cara a cara, com a irracionalidade bestial da morte que nos assombra ao longo da vida?

Blasco Mentor, Medo

Tudo me soa a psicanálise de almanaque diante do turbilhão esfíngico e voraz desse bestiário que devora e deglute ser humano e fera,

André Masson, Tauromaquia

a ponto de embrulhar-nos o estômago e não sabermos quem, de fato, o animal.

Não importa a macheza da pose pelintra e boçal (ora, que só me falta cuspir no chão e coçar o saco!)

Ignacio Zuloaga, Torerillos de pueblo

 ─ fico a indagar-me se os cequins brilhantes, brocados e sedas do modelito toureiro

não estariam simplesmente afirmando que a parte mulher que habita em nós, homens (ave, Jung!),

Blasco Mentor, Manola

─ essa manola a travestir nossa  anima ─ é macha (ou será maja?) paca!

Quisera as touradas fossem vistas pelo pincel de Blasco Mentor (pseudônimo de Mentor Blasco Martel

 * Barcelona, 13/11/1919 - Solliès-Toucas, Provença, 4/5/2003):

Blasco Mentor, El ramo  

Blasco Mentor, La lengua

Blasco Mentor, La revancha

─ esse fotógrafo paródico dos bastidores anímicos de nossas  touradas com o inconsciente:

Blasco Mentor, O fotógrafo

 

Acto tres: tercio de muleta

Diz-se que um dia é da caça e outro é do caçador. Só que, nas touradas, raro é o dia da caça, graças à covardia das regras dessa luta entre os belos e as feras.

Na arena são seis humanos (cuadrilha ─ apropriado nome ─ chama-se o grupo que auxiliará o matador: seus três bandarilleros mais seus dois picadores) contra um animal desarmado,

Pancho Flores, Tauromaquia

 cuja cabeça, em respeito à superioridade humana, deve vergar-se ao cansaço e à dor da lança dos picadores e das banderillas, desnorteado pela muleta que o conduz e prepara para receber, na medula, a estocada final do matador.

Que ilustração preferem? Uma nua e crua?

Ou a da arte que, aristotelicamente, estiliza e desfigura a crueldade da morte, embelezando-a?

Oscar Dominguez, Tauromaquia, 1951

Natural, pois, que, no raríssimo dia da caça,

Blasco Mentor, Castigo

 minha indignação enrouqueça gritando “Olé! Olé! Bravo! Bravo!”, quando os chifres do touro calam a bazófia do toureiro

 

e aspeiam

o “aqui jaz” de algum matador:

Manet, A morte do matador

Quisera fosse essa pincelada uma conversa, à Orfeu, para boi dormir e amansar feras.

Blasco Mentor, Violonchelo

E a bandarilla nunca servisse, ao cabo da faena (entenda-se, epílogo trágico no terceiro ato das touradas), de espetinho com língua, orelha e rabo de touro ─ restos mortais tornados iguarias de gourmand (atenção, escrevi gourmand e não gourmet) no balcão de açougues:

Blasco Mentor, Boucherie Chevaline

Que desça essa cortina pink, vestindo, à Barbie, o epílogo desse bestiário inscrito no machismo e na carnificina das touradas.