Teatral generosidade

O teatro não é um prazer solitário,

voyeurismo contemplado a segura distância.

The Sheridan Theater, Edward Hopper

Na caixa mágica do palco arde a fogueira das paixões,

Morte de Romeu e Julieta, Klimt

acendida ali para aquecer-nos, irmanados pela empatia e simpatia de uma catarse que há de purificar-nos, ao pôr ante nossos sentidos o canto e encanto de contos que falam ao nosso inconsciente coletivo.

Flavia e eu vamos muito ao teatro.

   

Teatro, Konstantin Somov

Quase que semanalmente. Passeando nosso modelito.

Theâtre de Vaudeville, Beraud

(Afinal, quem não vai ao teatro, com sua roupa de ver Dioniso, para ser visto? O espetáculo de personas começa à porta, segue pelo foyer.)

E pasmo ao testemunhar que o público de teatro em São Paulo (só em São Paulo?) tem uma sofisticação e sensibilidade inacreditáveis.

Intervalo na Comédie Française, Daumier

Ele é capaz de aplaudir, em cena aberta,

Diz-se que os parisienses..., Daumier

a tosse inoportuna da atriz, como se a expectoração fosse genial caracterização de personagem que, diga-se, não está a representar a hemoptise melodramática da Dama das Camélias.

Pergunto-me de onde vem tamanha generosidade.

Talvez porque, segundo Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1ª ed.1936),

mesmo à sombra dos espinhosos mandacarus de Tarsila do Amaral,

Abaporu, Tarsila do Amaral

sejamos um povo cordial. Entenda-se: etimologicamente (cor,cordis) comandados por essa víscera chamada coração.

(Os amigos sabiam que “abaporu”, em tupi, significa “homem que come gente”?)

Mas vamos lá. Apesar desse canibalismo (cultural, claro,)

só nos sabendo movidos por tão generosa víscera, posso entender que o público, coração pulsando na boca, venha a aplaudir, de pé,

Os comediantes, Edward Hopper

espalhafatosamente, espetáculos que, se não merecedores de vaias ou pateadas, pelo menos fossem agraciados, ao fim,

com o recolhimento de um educado, vazio , alheio e entediado silêncio.

Two on the aisle, Edward Hopper, 1927.

Não posso entender que nossa generosa cordialidade venha a afetar a inteligência seja da obra representada, seja  a nossa.

Aplaudir de pé, como prova de inteligência, espetáculos pífios (não obstante os ares pretensamente geniais),

Melodrama, Daumier

temerosos de que os circundantes nos considerem burros ─ isso, sim, é (permitam-me dizer-lhes cordialmente) manifesto atestado de falta de inteligência.

Quando vejo essas manifestações politicamente corretas (?!) de envergonhado respeito ao espetáculo malogrado, sinto-me com enormes orelhas quixotescas.

Moral de toda essa cordial arenga?

O desgosto de uns é o gosto de outros.