Kitagawa Utamaro, proibido para menores?

 

Nascido em Kioto(?), Osaka(?), Tóquio (?) por volta de 1753, faleceu em Endo, no dia 31 de outubro de 1806.

Além de pintar pássaros utamaro_falcao.jpg (216092 bytes)

e flagrar, à Vermeer e à Degas, o cotidiano feminino

utamaro_garota_espelho.jpg (174477 bytes)     utamaro_jovem_lendo_carta.jpg (206877 bytes)     utamaro_jovem_aplicando_maquiagem.jpg (180765 bytes),

dedicou-se à shunga, gravuras que se entregam gozosamente a ilustrar algumas das 64 posições consagradas pelo Kama Sutra

Por isso, Utamaro sempre me lembra O império dos sentidos, imperio_sentidos.jpg (197157 bytes) 

aquele filme de Nagisa Oshima que, em 1980, aproveitando a abertura política e o afrouxamento da censura no governo de João Figueiredo (1979-1985), povoou de sonhos e fantasias eróticas a insônia dos brasileiros.

Passaram-se trinta anos. Estatísticas e depoimentos de ginecologistas, psicólogos, terapeutas, pediatras, cartomantes e quiromantes revelam que a meninada vive hoje em dia sob o império dos sentidos e anda pecando contra a castidade nem bem saíram das fraldas e cueiros. Sendo assim, cabe indagar se Utamaro é mesmo proibido para menores.

utamaro_forms_embracing.jpg (177733 bytes)     utamaro_prelude_desire.jpg (182979 bytes)

Na cultura japonesa da época, as gravuras shunga não estavam associadas ao conceito de pornografia, como estão até hoje no Ocidente. Não serviam, como podem estar maldando, de inspiração decorativa para paredes de motel. Retratavam, isso sim, urgências do comportamento e desejo humanos.

utamaro_male_couple.jpg (690810 bytes)     utamaro_client_lubricating.jpg (264720 bytes)

Já dizia Camões, na Ilha dos Amores (Os Lusíadas, IX, 83): o mais que “passam na manhã e na sesta,/que Vênus com prazeres inflamava/ melhor é experimentá-lo que julgá-lo,/mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”.

utamaro_lovers_poem_pilow.jpg (58586 bytes)

Que o soneto “Passado a limpo” dê voz à muda poesia que ressoa em

Lovers in an upstairs room:

utamaro_lovers_upstairs_room.jpg (245751 bytes)

Ardem os corpos dos amantes, alheios

à chama que os acendeu: são agora

de si mesmos. Já não nutrem receio

de que o amor envelheça na hora

 

insubsistente, mortos os sentidos.

Mineram-se noite a dentro no garimpo

do que torne um no outro imperecido.

Um ver-se no outro passado a limpo

 

desejam na noite feita rascunho,

insurretos à Moral ou História

que os quer Adão e Eva precitos.

 

Recusam-se a ser argila incorpórea,

imagens de feitos sacros, benditos:

narram-se à margem do divino punho.