Ut pictura, poesis. Ut poesis, pictura

 

1. Diálogo de espelhos 

Trata-se mesmo de um diálogo de espelhos a imagem que da Realidade vemos refletida na superfície narcísica da tela ou da palavra?

Magritte, esse demolidor de certezas epistemológicas, responde sem pestanejar, arregalando nossos olhos incrédulos, ao dizer que estaremos sempre de costas para a Realidade, mesmo que a encaremos de frente.


 

La reproduction interdite, Magritte


2. Correspondências?

O latinório pagão do título lá em cima (Ut pictura, poesis. Ut poesis, pictura), em português cristão, significa: Como a pintura, a poesia. Como a poesia, a pintura.

Poesia, pintura que fala. Pintura, poesia muda.

Ambas, a seu modo e recursos, procurando apropriar-se daquilo que nossos sentidos aprenderam erroneamente a reconhecer como Realidade.

Fácil o bosquejo do símile poesia igual à pintura.

Nesse momento, Flaubert,

olhos apontados para a mesa em que escrevo, me fita do retrato emoldurado na parede.

As pontas descaídas do bigode

mais parecem dois pincéis de pelo de marta (não obstante Louise Collet se chamasse sua platônica amada). Na branca tela de meu inconsciente (tabula rasa?), movem-se os pincéis-pelo-de-marta das pontas do bigode a grafar, em elegante cursivo de quem teve aulas de caligrafia, a seguinte mensagem:

Palavras são tintas na paleta, à espera da pena, que semelha o pincel.

Com a mistura das tintas, que são as palavras, pode-se debuxar, de forma mais ou menos nítida, dependendo da arte e do engenho, qualquer coisa encontrável na Natureza, seja ela agradável ou repugnante à ética e/ou aos sentidos.

Com o recurso do substantivo, que é o traço mais ou menos vigoroso; com o concurso da cor, que é o adjetivo; com o discurso do verbo, que é o movimento ou ação que se insufla na imagem; com o sincopado das pinceladas, que é a pontuação, tudo se pode pintar, ao escrever ou descrever, transformando a poesia e a narração em pintura.

Ut poesis, pictura? E o que dizer da pintura como poesia muda?
 

3. À procura de que sentido perdido? 

Divagar, e sempre, eis-me à procura de sentidos perdidos.

Cada arte tem um signo que lhe é característica e significativamente intrínseco. O da Literatura é a palavra escrita, cuja caligrafia deve ser longa e penosamente exercitada.

O da Arquitetura, o espaço vazio. A ser preenchido para o abrigo e conforto de nossa solidão existencial.

The Red Tower, De Chirico

O da Música é o som, que, encantatório Orfeu, deve acalentar-nos, fazendo-nos dormir para traduzir o inefável dos 

Orfeu, Gustave Moureau

sonhos. 

(Vade retro, Freud, mais seus demônios íncubos e súcubos, Mênades chamadas!)

O da Escultura, o volume. Submetido à sensibilidade de um picão, cinzel ou formão que há de transfigurar em maleável matéria humana a bruteza de pedra, mármore ou madeira de nossa natureza.

Pietá, Michelangelo

O da Coreografia é o movimento ─ esse nosso despenhado sonho de Ícaro incansavelmente ensaiado e reproduzido nos voos de perdigão do balé.

Aula de Dança, Degas,

O da pintura é a cor. (Para mim sempre muda, não obstante os ouvidos destrambelhados de Rimbaud, a ouvir vogais, e os olhos e ouvidos de Kandinsky a ler-lhes sentidos e a ouvir-lhes sonatas e fanfarras.)

(Acessar http://www.pinceladas-fms.com.br/kandinski.html)

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Blue, black and grey, Georgia O’Keeffe

Logo, toda pintura é essencialmente abstrata, pairando num nefelibatismo estratosférico muito além de minha pobre e terrena compreensão.

Gravem todas e todos: Cor e abstração são a amizade colorida da pintura. Ai de nós, os mal-educados sensorialmente à luz de um figurativismo que só ludibria nossos sentidos.


Lado A, Magritte 

Enganou-se Leonardo Da Vinci, em Paragones, ao conceber a pintura como representação fotográfica da realidade, rápida e univocamente captada pela visão. À moda de Caeiro, desejando ser o Mestre de todos, Da Vinci concebia deíctico e infalível nosso olhar: isso é árvore, isso é rosa, isso é homem, isso é mulher.

Ceci n’est pas une pipe,  Magritte

Em seu ledo engano, pensava Leonardo nas formas consabidas pela tabula rasa de nossa doentia e decadente retina.

The eye, Odilon Redon 

Em barrocos anos, época sequiosa de epistemologias, desejosa de corrigir e expandir nossos falaciosos sentidos... Sim, foi nos barrocos anos que, objetivando corrigir os anacolutos do discurso inscrito na realidade, microscópios (1590) e telescópios (1608) vieram hipertrofiar nossos sentidos para que nós, eternas vítimas do trompe-l’oeil, pudéssemos ver mais de perto o Real ─ não fosse ele enganar-nos dizendo que as coisas são o que parecem, não o que são. 

 

Domingo de Ramos, Octavio Ocampo

Afinal, ese cielo azul que todos vemos, meu caro Lupércio Leonardo de Argensola (1559-1613),  ni es cielo ni es azul. Lastima grande, que no sea verdad tanta belleza.

O retorno, Magritte

Ao cabo, a Pintura, sendo essencialmente abstrata, permanece poesia muda, enigmática em seus sinais de traços e cores?

Se assim for, vemo-nos diante das telas como se elas fossem Esfinges

cujos enigmas sempre hão de revelar diabetes nos pés inchados de Édipo. 

 

Édipo e a esfinge, Francis Bacon

À Édipo

 

Já não vês

com nossa retina de cegos,

essa tabula rasa

de imagens consabidas.

Estás livre

das formas difusas

que enclausuram cores

para o engano dos sentidos.

 

Trazes agora,

subterrânea,

outra esfinge.

 

Poesia,

 mulher arrancada à costela do enigma ,

Pintura,

 parte maior da fábula que te toma ,

ei-la

emoldurada de horizonte

no crepúsculo dos olhos.

 

 

Roubadas a Tirésias

duas gotas de treva

chamejam em tuas pupilas,

 minhas agora,

translúcidas:

 

és o pai

dum coração também parricida,

pois que te devora

enquanto me decifras.