Ut poesis, pictura

  

Parafraseio Octavio Paz (em Los privilégios de la vista), dizendo que ver é um privilégio. E acrescento, por minha conta, que ver o que não se enxerga é um privilégio ainda maior.

Da série Zeróis, Ziraldo

(Quem não vê sob a pele palimpséstica do quadro do Ziraldo

The connoisseur, de Norman Rockwell?)

Razão tinha, pois, Merleau-Ponty, em L’oeil et l’esprit, ao dizer que a pintura (com suas linhas, cores e volumes) celebra o enigma da visibilidade.

Lembrei-me de ambos, de Octavio Paz e de Merleau-Ponty, em razão do que venho fazendo nessas Pinceladas sobre a pintura alheia. Já confessei candidamente que não entendo de pintura. Nem quero entender. Evito assim tornar-me matéria de riso ou espanto dos quadros que me fitam.

The art critic, Norman Rockwell

Ademais, minha experiência acadêmica ensinou-me que a sabedoria bibliográfica embota os sentidos e a sensibilidade, além de cegar a alma. Simplesmente, ponho-me a escutar a muda poesia das formas e cores inscritas nas telas e, por artes de ventriloquia, procuro fazê-las falar.

 

 Guided tour

Convido-os a que me acompanhem nessa visita guiada. Caminhemos, a divagar e sempre.

Vejam, senhoras e senhores. O site (www.pinceladas-fms.com.br) desse museu virtual abre com a paleta de Delacroix

e um autorretrato de Daumier

sublinhada por frase de Degas:

“Vê-se como se quer e é esta falsidade que constitui a arte”. 

A epígrafe de Degas mais a paleta de Delacroix vêm reforçar a relatividade e a subjetividade impressionistas da visão oferecida por essas Pinceladas sobre a pintura alheia em busca de um sentido perdido que capte e decifre a Realidade. 

Por esse ângulo, a duplicidade significativa do ut pictura poesis (como a poesia, a pintura; como a pintura, a poesia) inspira o diálogo especular travado pela mensagem tácita das imagens pictóricas com a legenda de um discurso que busca traduzi-la poeticamente como se fora um espelho cubista em seus ângulos e visões ─ e cuja imagem que me vem à cabeça lembra A mulher e o espelho, de Picasso.

Assim, a conversa travada entre Pintura e Poesia, sob a égide clássica do ut pictura poesis, procura dar também sua pincelada sobre a questão leonardo-da-vinciniana do paragone ─ isto é, da emulação comparativa das Artes, buscando discutir a problemática questão da superioridade de uma sobre a outra.

(Acessar Paragones I e II, em http://www.pinceladas-fms.com.br  respectivamente Segundas e Terceiras Iluminuras)

http://www.pinceladas-fms.com.br/paragones.htm

http://www.pinceladas-fms.com.br/paragones2.htm


 Narciso cego

Pinceladas sobre a pintura alheia (www.pinceladas-fms.com.br) não passa de uma reflexão sobre a Arte como meio de conhecimento da Realidade.

Céptico, olhos cansados de mentar, penso, que a Realidade é inapreensível. Não só inapreensível. Penso, naturalmente também, que é inefável. Ou seja, impossível de ser traduzida e refletida através da palavra.

Só da palavra?

Veja-se Magritte, esse Alberto Caeiro dos pincéis, a questionar ironicamente a acuidade e falaciosa certeza dos nossos sentidos, educados à luz de que não sei tenebrosa cartilha.

(Acessar Magritte, I e II, em www.pinceladas-fms.com.br, Quintas Iluminuras)

http://www.pinceladas-fms.com.br/magritte1.htm

http://www.pinceladas-fms.com.br/magritte2.htm


Caeiro, Almada Negreiros 

Caeiro, que teve apenas uma educação primária no liceu, pontifica, ex cathedra (sábia ironia!), a lição de que a Realidade, inapreensível por natureza e essência, é inefável, pois todo SE (Significante) é veículo de um SO (Significado) arbitrário.

Com sua primária educação liceal, Caeiro foi o mestre de todos os heterônimos pessoanos, ao ensinar que a Realidade, captada por nossos cinco sentidos, não pode ser expressa fielmente, pois nosso sexto sentido é uma linguagem cujo Significante (SE), arbitrário, é veículo de um Significado (SO) que nada nos garante seja o fiel reflexo e expressão da Realidade.

O Fernando Pessoa, dito ortônimo, embora também heterônimo,

Fernando Pessoa, Almada Negreiros 

foi atento e fiel discípulo do primário ensinamento de Caeiro. Tanto que psicografou a mensagem do Mestre Caeiro, prematuramente morto, autopsicografando a própria experiência poética.

E saiu-se com a verdade definitiva, repetida de memória à exaustão, de que todo poeta é um fingidor:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente. 

Fingidor, não porque hipócrita ou mentiroso. Mas porque a Dor que ele deveras sente, ao ser transposta para o papel (ou para a tela, fosse ele pintor), quando tenta apreendê-La, não passa de rascunho rupestre da caverna platônica ─ simulacro, pois, da verdadeira Realidade, cujo ofuscante Sol é capaz de cegar-nos.

Assim, todo artista (não só o poeta) é (e sempre será), como diz o ortônimo Fernando Pessoa, um fingidor. Esse que tinha a singularidade de ser Pessoa(s) 

Fernando Pessoa, Júlio Pomar 

(por isso costumo chamá-lo Fernando Pessoa,ae), no poema Autopsicografia, diz-se tabula rasa a registrar as informes mensagens inscritas no além de sua alma. Ao cabo (de sua pena?), cumpria-lhe apenas o papel de grafar um discurso inefável por natureza. Afinal, que signo ─ mero simulacro saussuriano da caverna platônica ─ haveria de emergir à luz da verdadeira realidade?

Quanto a mim, silenciosa Musa veladora do inefável da Realidade,

The Disquieting muses,  De Chirico,

penso que todo papel já traz inscrita uma realidade por revelar. Sempre achei que no branco silêncio do papel ou da tela (mesmo a do computador) há um discurso já pronto, à espera da revelação: um texto oculto à procura pirandeliana de um autor. Nossos ouvidos e olhos e dedos (a linguagem das Libras regendo a batuta dos pincéis) não passariam, pois, de intérpretes do discurso que ressoa, exigindo vir à luz.

Escritor ou pintor, cabe-nos, ao cabo, o papel de cavalo ─ pégaso

 

Pégaso, Redon

que segue no coice de inefável realidade, querendo fazê-la brotar em fonte de poesia.

Talvez por isso, a Pintura, meu caro Magritte, ao  reconhecer-se como Narciso cego (ou míope, ou enfermo de hipermetropia, glaucoma, catarata), tenha inventado o Impressionismo, o Expressionismo, o Abstracionismo, o Cubismo ─ e outros ismos ─ consciente a Arte de que o artista, esse fingidor, só chega a fingir (por meio de arbitrários signos) que é Real a realidade que seu enganoso (e subjetivo) sentido visual apreende. 

Conclusão de toda essa arenga: ─ Narciso cego,

Narciso, Caravaggio 

a Arte, seja qual for, não pode rever-se à imagem e semelhança da ofuscante Realidade. Talvez por isso mesmo a carantonha do Real 

Medusa, Caravaggio

ainda venha a ser paradoxalmente bela no espelho das Artes.