Diego de Silva Velázquez (*Sevilha, 06/6/1599 – † Madri, 06/8/1660) com Gaudi arriba (*1852 - †1926)

Lembro que a primeira vez que fui à Espanha pasmei emudecido ante o delírio gótico da Sagrada Família do Gaudi, em Barcelona, e ante As Meninas, de Velázquez, no Museu do Prado.

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Então marinheiro de primeira viagem, nunca vira, ao vivo e in loco, uma catedral e uma tela deslumbrantes a ponto de quedar-me basbaque, a contemplá-las demoradamente. (Aliás, a única catedral gótica que até então vira e me parecera uma almofada de agulhas era a impressa na embalagem da água-de-rosas de minha mãe.)

Anos passados, repassadas outras demoradas contemplações da obra de um e outro, hoje compreendo por que Gaudi e Velázquez surgiram irmanados no meu então virginal  deslumbramento. 

Já que de espanhóis falamos, digamos que um, Gaudi, me transporta hacia arriba; o outro, Velázquez, me despenha hacia abajo. E ambos me enjaulam na redondilha Perdigão perdeu a pena, de Camões:

Mote alheio:   Perdigão perdeu a pena,/  Não há mal que lhe não venha.

Voltas:

 Perdigão que o pensamento

Subiu a um alto lugar,

Perde a pena do voar,

Ganha a pena do tormento.

Não tem no ar nem no vento

Asas com que se sustenha.

 Não há mal que lhe não venha

 

Quis voar a uma alta torre,

Mas achou-se desasado;

E,vendo-se depenado,

De puro penado morre.

Se a queixumes se socorre

Lança no fogo mais lenha:

Não há mal que lhe não venha.

Camões trata de nossa condição de bicho pequeno e vil: --- a de perdigões. A exemplo do perdigão, não obstante tenhamos as asas da aspiração, somos limitados e impotentes, incapazes de atingir a alta torre de nossos sonhos. Quedamo-nos desasados, com as penas do tormento de nossa humana limitação.

Gaudi, esse misto de coroinha e sineiro (Aleluia, Senhor!), dá asas a nosso sonho de perdigão.

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E (sursum corda) calcula elevar nossos corações ao alto, projetando um arrebatamento que deveria conduzir-nos a guindaste de um celestial êxtase para o regaço e seio do Criador: a alta torre almejada por nosso pensamento. (Milagre pós-moderno da ascensão ao Senhor: na angústia de um elevador alcançamos os píncaros de sua catedral neogótica.)

Já Velázquez, resignado com nossa humana e terrestre condição de perdigão, satisfaz-se em enaltecer e alcandorar nossa pequenez, puxando hacia abajo, as deidades católicas ou mitológicas. Era seu meio de humanizá-las e apequená-las. Dar-lhes, enfim, nossa dimensão e estatura de anões.

Suas divindades invejam nossa imperfeição humana, vestem nosso modelito. Querem ver mais que a lustrosa calvície que o Pai ostenta em A Coroação da Virgem?

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Então contemplem sua Vênus

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Que, vaidosa, busca reconhecer qual sua verdadeira face (a humana ou a divina?) na imagem míope e astigmática do espelho. Narcísica também, não enxerga o andrógino Cupido a dizer-nos que ela não passa de uma maja desnuda. Nem mais nem menos que reles cortesã oferecida ao lupanar de nossos desejos.

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A essa luz e imagem, talvez não cause espanto a indignação com que, aprendizes de Vulcano, ouvimos o fofoqueiro Apolo relatar que a maja desnuda Vênus, belle de jour et de nuit, distraindo-se nos motéis da vida com Marte, anda a ferretear Vulcano.

Que deseja esse também andrógino Apolo?  Acender, nas forjas do traído, o vulcão de nossa humana ira?