Vermeer: alegoria da fé no divino mandamento

 

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 Casal ecumênico, o calvinista Jan Vermeer e a católica Catharina Bolnes levavam a sério o mandamento bíblico do crescei (vamos lá, crescei, crescei, isso...) e (aaaaiii... Deus!) multiplicai. Tudo consumado à letra do kama sutra ou da ars amandi do mais casto e religioso furor priápico-uterino.

 Vermeer nasceu em 1632, na cidade de Delft; casou-se em 1653; morreu na mesma Delft em 1675. Feitas as contas, em quarenta e três anos de vida e vinte e dois anos de casado, deitou à vida quinze filhos, produzindo, nas horas vagas, uma média de dois quadros por ano.

 (O ócio, sem televisão que o preencha à noite, é a oficina do Diabo, a letra e a toada da fornicação --- já pontificava minha prolífica avó com suas luzes nordestinas.)

 

 

 

 Vermeer e a pintura de gênero

 

 Talvez porque incansável reprodutor do gênero humano, Vermeer dedicou-se à pintura de gênero. Do gênero feminino.

 Presas fáceis da tentação e do pecado essas mulheres que sabem 

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tocar instrumentos...

 Virginais, quase sempre, os instrumentos nos quais, movimento de tocatas e de fugas, elas simulam aulas inocentes, quando surpreendidas por nossa bisbilhotice de voyeurs...

 

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 Mal sabem elas (instrumentistas virginais?) que os quadros às suas costas são a legenda de seus castrados pensamentos e desejos.

 Ah se pudéssemos enxergar as linhas e entrelinhas daquela carta que o alcoviteiro Cupido traz à mão, acenando-lhe com...  

Pudesse ela ser vibrada até às últimas cordas,

 

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como o alaúde às mãos da mulher que, no quadro A Alcoviteira, de  Dick van Baburen, a peito descoberto, simplesmente ignora o Pecado, travestido na cafetina que está a cobrar-lhe o preço do prazer... 

 O português Camilo, escudado nas barbacãs do medieval castelo branco de seu machismo marialva, diria que, bas bleus, essas holandesas não passavam de ideotas, com ideias mais compridas do lhes permite a burra crina do penteado.

 

 

 De correspondências

 

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 Imagino-me o Primo Basílio delas.

 Gato já escaldado ao fogo de outras paixões, as cartas acima soletradas (bê-á-bá pecaminoso para os ouvidos e aprovação de criadas), apresso-me a respondê-las,

 

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 cortando-lhes a imp(r)udência, cerce a machado,        

 

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 com a lembrança de que a paz de todo adultério depende, minhas senhoras, do analfabetismo alcoviteiro dos fâmulos...

 

 

 Quadros de proveito e exemplo

 Ante o exposto acima, reconheço que um maracanã de razões têm os flamengos (e os holandeses) de se dedicarem a pinturas de proveito e exemplo. Afinal, a defesa da moral e dos bons costumes (quais?) será, eternamente, momentoso tema.

 

 1. Vaidade, teu nome é mulher?

 

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 Sem dúvida movida pelo quadro do Juízo Final que, à sua direita (dela, ó Umbigo do Mundo!), está a lembrá-la, memento mulier!, que a Vida, leviana como equilibrada pluma, não deve pesar na balança divina.--- ora vejam, mirem, com que unção religiosa essa mulher (prenhe de arrependimento?) despoja-se dos adereços da vaidade mundana.

Pérolas, meu caro Vermeer, depositadas, como penhor, para resgate futuro, a juros e juras, na casa de Deus?

 

 2. Só o trabalho enobrece

 

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 Que o exemplifique essa nossa companheira, doméstica dedicada ao preparo absorto do pão-nosso de cada dia-a-dia.

 Papilas gustativas despertas, salivemos, pavlovianamente, seja qual for a língua (breakfast, desajuno, prima colazione, pequeno-almoço, brasileríssima-média-com-pão-na-chapa-e-derretida-manteiga) e caiamos de boca nesse manjar. 

 O espesso leite (mungido dos castos seios de Maria? ou será dos ubres da criada?) e o tentador pão (amassado na última ceia?) ganham a corpulência de espiritual alimento que sabe à imponderável leveza do ser  nutrido a  guloso jejum.  

 Mas que olor a bíblico pão tem o bodum doutrinal do suor laborioso!

 

 3.      Dúvida cruel

 

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 Ei-la congelada no flagrante de sua indecisão. Sinal de que ainda não se decidiu se vai despejar janela afora o conteúdo (água mesmo?) do jarro em sua mão esquerda.

 Porque conhecedor dos cômodos e incômodos do Vermeer, sei que, a par de quadros, mapas, repisados soalhos-xadrez, a janela que ela parece abrir representa constante figuração cenográfica de seus quadros. Vemo-la em Senhora escrevendo uma carta e a criada, em A mulher do colar de pérolas, em Mulher tocando alaúde junto de uma janela, e com transparência flagrante em O copo de vinho e Mulher e dois homens.

 

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 O que escancara à nossa visão essa curiosíssima janela?

 A imagem doutrinal da Temperança, com seu Esquadro (simbolizando as boas e retas ações) e o Freio (breque necessário para o controle das emoções e sentimentos)

 Se deitar janela afora o conteúdo (água?) do jarro, que estará ela nos dizendo? Que daquela água (?) não mais beberá? Vamos lá, Vermeer, qual o sentido desse líquido? Natural e corrente espelho da vaidade feminina?

 Mas e a caixa de joias que repousa sobre a mesa, sem atrair a atenção dela, mas atraindo a nossa? Por que não jogar fora a caixa de joias, tal qual dejeto, ao invés da... água?

Como? Que eu consulte o Emblemata (de Andréa Alciatis, Lião, 1550)? Lá encontrarei toda essa preciosa simbologia?

 Não acha o sibilino Vermeer que tanto preciosismo é atirar, janela abaixo, pérolas a porcos?